quinta-feira, 16 de julho de 2015

"Eu desabafo com as minhas lágrimas"

Vejo pelo espelho retrovisor a cabeça encostada na janela. Não me pede para colocar outra rádio nem para mudar de música. Não há som entre os dois. Nada. Silêncio absoluto. Sei que não vale a pena perguntar. Conduzo. Entramos em casa e sei o que tenho a fazer. Deito-me ao lado. Beijo-lhe a cara salgada, afago o cabelo e tento entrar. Nunca consigo logo. Nunca. Inicio um jogo de avanços e retrocessos. Muitos silêncios. Não posso pedir logo tudo mas começo por algo. Ouço uns nadas que são tudo. Lembro-me de mim. Lembro-me tão bem de mim! Respeito aquilo que não me quer dizer. Respeito a sua idade de gente e a sua privacidade. Engulo lâminas invisíveis. Conta-me só o que quer contar. Confia aquilo que é de confiar. 
Essa história de que as mães são as melhores amigas não é verdade. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Há esferas que não se confundem. Ou não devem. Mãe é um ser também pequeno. Que começa a dar os primeiros passos naquilo que é fazer crescer outro bem mais desprotegido. Não há livro, experiência relatada ou ensinamento transmitido que transforme uma mãe, num ser seguro da sua sabedoria. Eu não tenho certezas, pelo menos. Nem sempre sei quando devo forçar, quando devo exigir, quando devo largar. O que melhor sei é aguardar. Estar ali e esperar entender os sinais. Eles (os miúdos), normalmente, devolvem-nos o que precisam. E, assim de repente, as lágrimas saem com mais força, as palavras atropelam-se. Simplesmente deixam-nos entrar. Lambem-se as feridas. Abraça-se forte e descontrai-se. Todos os problemas se resolvessem assim. 

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