quarta-feira, 23 de março de 2016

23 de março de 2016

Aquilo de que mais sinto saudades é de te chamar "papá". É uma palavra que nunca mais disse ou voltarei a dizer. É uma palavra que diz que ainda sou pequena e que ainda preciso de ti. É a palavra que diz que sou tua filha. No outro dia, estávamos  à mesa. Eu era "mãe" e por isso crescida. A porta de entrada bateu e as chaves foram depositadas à entrada. Foram atiradas, sabes? Os olhos estavam na rotina. A olhar para o prato, a ver se os miúdos comiam tudo, sei lá. Ouvi aquele som e os meus olhos abriram-se. Recuaram tanto, mas tanto. Vi o hall de entrada da nossa casa e vi-te a chegar. Pousaste a pasta no chão, atiraste a chave. Aquele mesmo barulho. Os meus olhos deixaram de ver. Fiquei com a respiração descontrolada e controlei tudo o resto. Eu era grande, ali. E os grandes são fortalezas. Dizem. 
Às vezes esqueço-me de ti, sabes? Esqueço-me mesmo. Parece que já passaram muitos anos, desde que te vi. Esforço-me por recordar. Começo a lembrar-me de pouco. Não esperava lembrar-me das chaves. Queria tanto lembrar-me de tudo. Vejo-te sentado no meu sofá sem tirar o casaco. À mesa com o piri-piri em frente ao prato. Lembro-me de te espalhar o creme nas costas, debaixo do chapéu da praia. Recordo-me da tua cara a comer aquele que sabias ser o teu último gelado. O café curto sem açúcar. Vejo-te especialmente nos últimos tempos. E queria tanto lembrar-me dos outros. Anseio pelos sonhos que tenho contigo. Estás vivo mas precisas da minha ajuda. Uma qualquer. E acordo. Tenho alguns maravilhosos segundos... Em que ainda não sei que morreste. 
Tenho tantas saudades de te chamar papá. Tenho tantas saudades de ser a tua filhota. Ainda sou tão pequena. Sou mesmo. 
Farias hoje não sei quantos anos. Não sei se seriam 73, 74, 75... Não é importante. Tenho muitas saudades tuas. Papá. 

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigada. Diz tão pouco do que queria dizer. Obrigada pelo carinho. Beijinho.

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  2. "Diz tão pouco do que queria dizer" - eu já acho que diz muito, diz amor e isso é tanto!
    Que as saudades continuem a existir, mas que sejam macias e suaves.
    Um grande abraço apertadinho.
    Alexandra

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  3. Que texto tão brutal.
    Tão bonito
    Tão intenso.
    Tão esmagadoradamente real.

    Coragem

    Rita Pereira

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