Enquanto andam todos tristes, eu ando contentinha. Estranho, não é? Mas, se analisarem bem a minha situação vão ter de concordar que tenho razão.
Eu sou funcionária pública. Sim, sou culpada da destruição crescente desta sociedade. Sou motivo fundamental do endividamento do Estado e mereço uma fustigação permanente. É por minha causa que as famílias portuguesas vivem com dificuldade e o apedrejamento em praça pública é peanuts face ao que mereço. É que reparem: eu não faço nada. Nada. Não produzo. Estou das 9h00 às 17h30 a coçar a micose. A falar com familiares pelo telefone, a gastar erário público imprimindo receitas culinárias e, no restante tempo, aqueço os pés na escalfeta enquanto pinto com rigor e mestria as unhas. Assim, mereço todos os castigos deste e outros mundos. Mais 7, menos 7, tudo é pouco para me corrigir. Ah... mas parece que afinal não estou sozinha! Os entes supremos da produtividade e competência também merecem um tautau! Então, afinal não somos assim tão diferentes... Não me digam que os meninos também lêem a Nova Gente entre a pausa para o café e um jogo on line de tetris?
Assim, estou contente! Cá em casa- entre os sectores público e privado- já não há discrepância. Se eu levo uma paulada, o senhor meu marido também a leva. E a união matrimonial sai reforçada. Ora, 7 e 7 são 14, que corresponde ao número de segundos que ficámos sem ar. Enquanto
Peter Rabitt falava c'a gente, no silêncio familiar, ambos faziamos contas mentais à facada no orçamento mensal. E pela primeira vez estavamos em sintonia laboral. Ó pra mim contentinha!
Agora aguardo, com ansiedade, que esta sintonia se alarge aos descendentes para que a harmonia seja geral. Mas não irá demorar muito, julgo eu. Muito em breve a televisão vai-se desligar. Vamos todos juntos a pé para a escola e trabalho. Partilharemos roupa, água fria do banho e latas de sardinha. E seremos todos muito mais felizes. Trá lá lá lá lá!