quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Pequena adulta
Quando passamos a ser mães, parece que deixamos de ser filhas. É uma coisa meio estranha. A sensação é de que atravessamos uma ponte quebradiça, por cima de um desfiladeiro sem fim, para um outro lado qualquer. De repente, crescemos e passamos a cuidar, em vez de sermos cuidadas, somos donas e senhoras, como quando, a brincar, as imitávamos vezes sem fim. E repetimos gestos, falas, imitamos sons e músicas de embalar. Vestimos os bebés como vestimos os bonecos e andamos, assim, em círculos. Senti isto. Esta alma cheia e emproada no meu novo papel e senti-me a atravessar o desfiladeiro como se o coyote dos desenhos animados me perseguisse. Não atravessei para o outro lado propriamente triste ou aflita mas tive muita consciência desse ritual silencioso. Dessa quase separação. Talvez por esta noção tão presente, vejo-me a regressar muitas vezes ao outro lado. "Preciso falar com a minha mamã. Porquê, mãe? Porque é a minha mamã, tal como eu sou vossa." Para eles é estranho. Para mim, não. Às vezes-muitas vezes- ainda preciso muito dela.
sábado, 27 de setembro de 2014
[Gostas de mim?], o desafio da Raquel
A Raquel lançou-me um desafio: escrever sobre mim. Já passaram uns dias e sempre que penso numa introdução, tenho tendência a escrever linhas mentais sobre... ela... Talvez diga logo à partida, algo sobre a minha personalidade. Tenho dificuldade em manter o foco na minha pessoa. Quase uma vergonha, como se escrever sobre mim fosse um exacerbado auto-elogio que perde aquela sensação boa de resultar da perceção de outra pessoa. Assim, farei o que me parece mais inteligente. Escreverei sobre mim e aguardarei, serenamente, um reforço positivo da vossa parte. E como decisão estratégica que é, eliminarei comentários negativos... [a pessoa vai aprendendo]
1. O que sai sempre contigo de casa?
As chaves. Sempre as chaves. Dentro da mala, enfiadas no bolso ou amarradas às calças de corrida, nunca me esqueço delas. Venho de uma altura em que, de quando em vez, me via obrigada a sentar-me nas escadas do prédio. Sem telemóveis e meios ultramodernos de comunicação, se tinha o azar de me esquecer delas -das chaves- tinha de me sujeitar a arcaicas estratégias de enfrentar o infortúnio. A primeira reação era a busca ativa. Depois de vasculhar a mochila, vasculhava as ruas. Com quatro irmãos como solução, procurava na sala de jogos, no café por detrás da escola, na praceta de cima, na praceta de baixo, na praceta do lado. Perguntava aqui e ali. Se nem a quantidade de possibilidades me safava, sentava-me no mármore frio. Olhava para a paragem que trazia o autocarro da minha mãe. Dava a volta pela rotunda e nesse momento eu tentava adivinhar-lhe a presença num qualquer lugar do 48. Lá vinha ela. Com as chaves. Nunca saio sem as chaves.
2. Qual o teu animal favorito?
Não gosto desta pergunta. Sinto que é a mesma coisa que me perguntarem qual a minha cor preferida ou a minha comida de eleição. Não há uma resposta. Gosto de castanho no inverno e adoro branco com o azul da ganga, no verão. Gosto de caril de frango porque sabe ao amor dos meus pais e gosto de founde de carne porque é sinónimo de amigos e confusão. Não há uma resposta. Animais? Gosto dos meus animais. Da minha Bichinha que deixou um espaço vazio dentro de mim. Gosto do Riscas que dei à minha mãe e que me conforta porque a conforta. Gosto da minha Maggie porque me alenta com o cheiro do meu pai. Gosto de gatos. Mas podiam ser cães ou perus.
3. Qual o teu sapato preferido?
A minha resposta é "o pequeno". Os sapatos dos meus filhos- no plural. Aqueles que eu lhes comprei quando ainda comiam de duas em duas horas. Minúsculos e perfeitos na réplica. Sem préstimo para além da minha vaidade. Sem dúvida, esta é a minha fácil resposta. O resto- os meus- não têm interesse nenhum e muito menos memória. Vão alinhando com a moda, em termos de cor, feitio e altura e morrem com o uso ou pela traição de uma nova tendência.
4. Produto de maquilhagem indispensável?
Agora que confessei não ter nenhum fascínio e fixação com sapatos e destruí a minha imagem feminina, vou garantir um suicídio efetivo com a minha próxima resposta. Não tenho... preparem-se... Maquilhagem indispensável. Quase que me encolhi agora como se aguardasse pauladas nas minhas costas. Detesto batom. Não controlo o batom. Receio que vá parar à bochecha ou à minha mão e depois à minha camisa branca. Não acho que acrescenta nada a cor natural do meu corpo. Lábios muito vermelhos depois de comer, rosa nos restantes tempos. Gosto de os mordiscar e não ficar a pensar se a cor se mudou para a superfície branca dos dentes, como uma qualquer fábrica com mão de obra mais barata. Não gosto de batom, ponto. O rímel é incompatível com a miopia e não há nada a fazer. Lentes de contacto não se dão bem com pós e pózinhos. Base. Bem, já usei. Quando casei, talvez. Faz-me confusão. No fundo tenho medo de ter a cara com a cor da Caraíbas e o pescoço e restantes membros com os tons dos Alpes suíços. Gosto de lápis nos olhos. Cor castanha, sempre. Mas não me importo de não fazer estas linhas. Faço quando me lembro. Acho que me fazem bonita. Esqueço os olhos de formiga e engano-me com um ar mais rasgado que dura, sensivelmente até às onze da manhã.
[Se ficou decepcionado com estas respostas, esta leitura terminou aqui. Se aguenta mais uns pormenores estranhos, avance.]
5. Qual o teu maior sonho?
Chateia-me este singular. Uma pessoa não tem UM sonho. Vai construindo os seus castelos nas nuvens, a cada 5 minutos, a cada dez centímetros adquiridos. Vai achando que aquilo é um sonho e depois de o ter na mão, sente que afinal era um desejo. Um ímpeto. Olhando para trás, já tive muitos. Ter uma boneca, um gato, ser bailarina, entrar na faculdade, segurar a chave da minha casa, conhecer o meu bebé, conhecer o outro bebé, escrever um livro, não perder alguém, conseguir ter -só - saudades de alguém. Mas, lembro-me, desde sempre, de desenhar casas. Casas mesmo. Com uma porta térrea, uma árvore e um jardim. Com flores. Se tivesse de eleger um sonho, escolhia esta casa. Onde caberiam os meus bebés, os gatos, os sapatos e até o batom.
6. Qual o teu maior defeito?
Dizer o maior defeito é demasiado. É como dar-vos a chave. Ensinar-vos a ter tudo [ou quase tudo de mim]. Vou dizer "não" mas não vos deixo sem resposta. Vou dar algumas pistas, coisas isoladas, que somadas, constituem a "big picture". Drama queen, só a mim é que as coisas acontecem. De neura fácil. Com a mania que tudo tem a ver comigo. Não é a terra que dá a volta ao sol, é o sol que às vezes circula pelo meu planeta e só não me ilumina a mim.
[Se quiser parar de ler agora, eu entendo.]
7. O que te irrita nas pessoas?
Fácil. Muita coisa. Não gosto de pessoas más. Não percebo as pessoas más. O prazer que daí advém.... Gosto de fingir que não sei. Aceito os abraços e as frases fofinhas e divirto-me com a sua esperteza curta. Adoro observar.
Não gosto de pessoas que põem as outras para baixo, para se sentirem para cima. Tenho pena dessas. Ó vida triste!
Resumido aquilo que não gosto, chego às irritações. As manias. A arrogância e altivez. A postura superior confundida com uma suposta segurança. Quem mexe o café sonoramente, durante dez minutos. Quem só revela o melhor. Quem mastiga de boca aberta. Ou não responde às mensagens. Não gosto de tanta coisa. Mas, convenhamos, às vezes também não gosto muito de mim. Quem é que nunca fez nada disto? [Excluindo a parte da boca aberta, depois de aprender a usar a colher]
8. Qual a tua comida preferida?
Eu sabia que havíamos de chegar aqui.
Gosto de quase tudo, infelizmente a verdade é esta. Gosto da comida que me trás memórias e gosto de comida, só porque sim. Adoro pão. Branco, escuro, com sementes ou às bolinhas. Adoro. O queijo dá-me prazer. Reviro os olhos, saboreio os paladares fortes e não excluo quase nenhum. Gosto de bolos. Olho para a montra e não decido. Gosto de todos e sinto-me capaz de engolir mais do que um. Ia um pastel de nata, um mil folhas e um palmier coberto. Também gosto de tarte de amêndoa ou de maçã. Se forem as duas, ainda melhor. Bolos caseiros também são a minha onda. E é quase um oceano. E também gosto de salgados. Não há cá opção A em detrimento de opção B. Empadinhas, rissóis, pastéis de massa tenra. São onze e meia e já penso no almoço... Gosto de bifes com batatas fritas, no Cantinho e arroz de polvo no Eduardo das Conquilhas. Adoro o sushi no Sushi Café e a picanha com alho na Mercearia Vencedora. Se estou triste, consolo-me com comida, se o sentimento é de alegria, festejo com... comida. Uma cabeça gorda, nada a fazer.
9. Dolce ou salgado?
É pá! Os dois! Juntos de preferência. Não só na comida, como na vida. Contrastes bons, desequilíbrios salutares, passo à frente, passo atrás. Tudo menos o cinzento. Tudo menos o azedo e o amargo.
Aceito acidez, q.b..
10. O que te deixa feliz?
Muita coisa deixa-me feliz e saber reconhecer isso, faz parte dessa felicidade. Os meus filhos aconchegados um no outro, a saúde da minha família, roupa passada a ferro, torradas com queijo queru, o bem-estar de quem gosto, uma mensagem inesperada, música, leite creme com açúcar queimado, o chão lavado, um elogio, dois elogios, fotografias bonitas, uma boa piada, o meu sofá com manta, roupa nova, ir ao cinema, chatear o meu homem até ao seu suspiro, boas notas, os pés na água do mar, gelado de caramelo, o silêncio, a boa confusão, tostas com molho de sapateira, flores mesmo que depois morram, dar colo, receber colo.
Fogo, estou cansada. É bom que gostem de mim!
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
|Sinto-a como ela me sente|
Agradeço muitas vezes. Noto que o faço. Agradeço se deixam o meu carro passar e agradeço depois, por ter efetivamente passado. No fundo, acho que nunca é demais a demonstração de gratidão, principalmente quando apuramos a nossa perceção sobre aquilo que faz efectivamente sentido. A Sofia arrancou-me hoje um sorriso, num contexto onde não era suposto fazê-lo. Sorri com vontade. Sorri com emoção. Pelo que escreveu sobre mim no seu blog mas acima de tudo, pela sensação maravilhosa de saber que nos sentimos mutuamente. Obrigada pelo teu carinho. Obrigada muitas vezes.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
O melhor é sempre a verdade
Ando aqui às voltas para escrever este post. A minha ligação com a publicidade não é clara. Se um dia acho que não devo utilizar este espaço para promover algo que me pediram ou simplesmente me ofereceram, noutro acho que devo fazê-lo porque de facto foi resultado de uma gentileza ou representou mesmo um ganho para mim. Mas mesmo quando assim penso, a dificuldade não diminui. Vagueio entre uma mensagem encapotada ou um aviso publicitário descarado. A maior parte das vezes não sei mesmo o que fazer e, na verdade, nada faço. Hoje, enquanto refletia sobre o caminho a percorrer e alimentava estas minhas dúvidas existenciais (como se este espaço virtual fosse um tratado internacional, consultado pelas mais altas instâncias e doutrina obrigatória em diversos níveis de ensino) conclui que o melhor mesmo era dizer a verdade. Dizer que hoje fui maravilhosamente bem recebida pela equipa da Absorvit, que passei uma tarde descontraída a beber chá gelado de menta no lindo Hotel Villa Itália & Spa Cascais e que me ri imenso com as nossas conversas atropeladas e cúmplices. Dizer que adorei o convite da Sofia, que a sinto como ela me sente [não sei explicar de outro modo] e que fiquei encantada com a possibilidade que me apresentaram. Aceitei com vergonha pela riqueza da oferta e tenho a certeza que falarei mais tarde, com propriedade, dos benefícios daí resultantes. Saí com um saco cheio de coisas boas para mim e para a minha família e com o coração cheio do mimo que me foi proporcionado. Se isto é publicidade? É. Mas é publicidade da boa. Porque é verdade.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
"Escreve"
É quase sempre assim. O conteúdo da mensagem é só este e eu olho-a por os segundos. Não respondo. Abro o blog e fico a refletir, como tantas outras vezes. Não me esqueço. Não me lembro de outra coisa. Penso e volto a pensar. Fecho o blog e respondo à mensagem. Agradeço o carinho, agradeço a amizade. Mas nem sempre escrevo. Às vezes sinto-me assim. Fechada sobre mim própria, na minha vida, que é só minha. Sem vontade que saibam de mim. Sem vontade de reafirmar que ando por aqui. Mas ando. A trabalhar como nunca. A descansar por necessidade. A correr quando o sentimento de culpa supera a falta de vontade. No meio dos livros, horários e assuntos dos pequenos mas não pequenos. A comer gelatinas e iogurtes sem prazer. A conviver com os meus amigos. A dividir-me por quem gosta de mim. Ando por aqui. E não me esqueço daqui. Mas nem sempre...
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
A diferença entre o ensino privado e o ensino público, em dois actos:
Acto I
[A minha filha]
Ai, mamã não me toques neste braço.
- Porquê?
Porque quando dá o toque para irmos almoçar, vamos a correr para não ficarmos muito para trás na fila e fazemos um monte.
- Um monte?
Sim. Para entramos na fila que é enorme! Hoje eu consegui mas fiquei com este braço para trás, preso na porta. O meu corpo passou mas o meu braço ficou para trás, percebes?
Acto II
[A filha da minha amiga]
"Mãe, tens de escrever um recado à D. Isolina.
- Então?
A gelatina não tem estado suficientemente fresca.
sábado, 13 de setembro de 2014
[Não é a morte do amor. Mas a anestesia da realidade]
Às tantas ele escreveu "o problema do casamento é que acaba todas as noites depois de fazer amor e tem de se voltar a reconstrui-lo todas as manhãs...". {*} Lembrei-me desta frase sublinhada enquanto assistia à alegria dos noivos. Questionava-me em silêncio se já saberiam disto. Há 12 anos eu não sabia. Acreditava naquele amor dos filmes, naquele amor que nos põe a suspirar com a melodia certa ou choramingar em cada casamento que assistimos. Acreditava que o amor era, apenas, espontâneo. Existia por si e alimentava-se porque assim bastava. Não é todas as manhãs que precisa de cuidados. É em todos os segundos. Atenção constante. Atenção consciente.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Acerca das não-reacções
Não há pessoa que eu conheça que não se orgulhe da sua frontalidade. Quando questionados, a resposta não é só afirmativa como assume cariz de bandeira- "eu sou frontal!". Não levar recados para casa, responder a tudo na cara, dizer literalmente o que se pensa é entendido como o expoente máximo da liberdade de expressão de qualquer pessoa que se defina como genuína. Quando, com todas as letras, assumo que sou pouco frontal, sinto o silêncio a pairar. Como se tivesse acabado de defender a pesca de baleias ou o espancamento à paulada de focas bebés. E é mais ou menos por esta altura, em que o silêncio se estende até aos limites da confortabilidade, que interrompo o espanto e fundamento. Não sou muito frontal, não. Tenho um terrível receio de magoar quem recebe a minha mensagem e, creio mesmo, que nem tudo deve ser dito. A dialética causa- efeito tem tempos diversos, para mim. As mensagens podem ser passadas de outras formas, noutras alturas, através de outros contextos. Acredito que a melhor forma de dar uma lição a alguém é colocado na situação inversa e fazê-lo perceber como seria se recebesse a reação que está habituado a dar. Obviamente que nem sempre o outro entende o alcance ou sequer, quer saber. Mas, não acredito nessa frontalidade que se apregoa com orgulho. Nem acredito em quem a veste como um manto. Acredito, sim, que mais nobre é a capacidade de ouvir, de perceber as razões dessa reação, e de agir sem magoar e, acima de tudo, sem se magoar. Ando por aqui. Por aproximações. A ouvir alguns, a perceber outros e à espera que outros percebam. Tranquila.
Moonlight... Queria tanto uma casa de fim-de-semana em Colares...
Já verificaram, porventura, a incrível funcionalidade dos botõezinhos que estão aqui ao lado? Pequeninos, lindos e a funcionar? Com caminhos e ligações que representam um mundo de possibilidades de interação com a minha pessoa? Moonlight tratou. Moonlight é fofinha. Já disse que amo a Moonlight.
{Aviso. Isto não é publicidade. É devoção.}
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Um texto sobre roupa interior. Acho...
No caminho para o trabalho ouço sempre rádio. Com um pequeno gesto mudo sistematicamente a frequência procurando a música que me interessa, o assunto que tolero, a voz que não me irrita. Há dias andei com um carro que não era o meu. Não toquei em nenhum botão. Concentrei-me em colocar o pé no sítio certo e esforcei-me para ocupar uma mão para a qual não era necessária função. E não toquei em nenhum botão! A rádio estava sintonizada na smooth fm e quase entrei em profunda depressão tal a energia que ecoava. No meu carro não é nada assim. A partir do momento em que começa a mover-se, alternam-se os sons. Isto tudo para dizer que há uma frase chave. Uma espécie de rastilho que faz com que mude automaticamente o que estou a ouvir. É aquela mania dos estudos, mas dos estudos parvos. Cada vez que ouço "há um estudo que diz..." lá vou eu com a mão ao botão. Hoje diziam que um estudo britânico indicava que as mulheres que tocam em roupa interior masculina têm mais propensão a fazer compras. [ ?! ] Como assim? É que não sei o que hei-de pensar:
1- o meu curso de sociologia foi um fiasco pois nunca empreendi nem uma aproximação a um estudo parecido;
2- que tipo de compras? Estamos a falar de roupas e sapatos ou sacos de batatas e pescada número 5?
3- sou eu que dobro a roupa interior do senhor meu marido e coloco na gaveta e não tenho sentido nada.
Ó bem que estamos a falar de uma coisa séria e amanhã vou-me esfregar nas peúgas e boxers azuis escuros na esperança de umas botinhas para a próxima estação ou... vou voltar a sintonizar a smooth fm e viver em agonia.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Sangue frio requere-se
Lembro-me de um dia específico. O meu irmão Pedro atirou-me com um copo de plástico à cabeça. Doeu para burro. Doeu mesmo e eu fiz o que uma qualquer criança faz. Sentei-me no chão, numa reentrância do corredor e esperei. Não sei quem chegou primeiro, se o meu pai ou a minha mãe mas recordo-me de iniciar o choro quando senti a chave a rodar. Ele também chorou...
Os meus pais nunca foram pais de castigos. A consequência era rápida e dolorosa mas depois passava. Assunto arrumado. Fungava-se um bocadinho, baixava-se as orelhas e pouco depois estávamos prontos para outra. Talvez por isso, eu hoje não seja muito boa com castigos. [Nem com aquela dor física, na verdade.] Mas com os castigos sou mesmo má. As semanas nunca são semanas, os brinquedos são sempre devolvidos e dou abraços e beijinhos mais depressa do que se apaga a minha memória. Lembro-me agora do copo e do choro programado. O castigo agora foi sério e prolongado. E eu estou aqui. A contar os minutos daquilo que é suposto durar mais do que umas horas.
Lembro-me do copo pois pergunto-me onde pára aquela miúda...
domingo, 31 de agosto de 2014
Graciosidade q.b. mas muita sorte...
Às vezes acho que devia ser [mais] como elas. As que vão para a praia com bonitas túnicas brancas e chapéus de aba larga. As que nunca molham os cabelos e nadam com elegância equilibrando os óculos escuros. As que não apanham sol na cara e abominam areia na pele. Mas... Outras vezes acho que não. Que não devia ser nada assim. Sem molhar o cabelo não me enrolo nas ondas com os miúdos. Sem o sol na cara não me sinto gente. Sem a areia na pele não é possível apanhar apanhar conchas e ver estrelas do mar durante a maré baixa. Às vezes penso que devia ser mais como as outras mas depois sei que sou mais como sou. A sentir tudo o que é bom sentir. Mesmo quando o que sinto é pânico porque caíram os iphones na água...
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
E longe
Ponha a mão no ar quem engordou nas férias e já comprou um carregamento de gelatinas. O resto das pessoas... ide falecer.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
[a escrever sem pensar ou eu não devia ver filmes inspiradores a esta hora]
Gosto desta foto. Estou de costas, meia desfocada, sem a luz apropriada. Enquadramento zero. Mas gosto desta foto. O simples facto de ter acontecido numa destas noites, só porque estava calor, só porque me apetecia, só porque podia... faz com que goste. E é só.
domingo, 17 de agosto de 2014
Abstract
Agravaram-se as minhas dores de costas. Nadei. Joguei cartas e disse nomes de animais. Andei nas rochas muitas vezes. Fiz uma fascite num pé. Mergulhei. Apanhei ondas. Comi lagosta, sapateira e percebes. Vi duas estrelas do mar. Corri e desisti aos três quilometros. Li três livros. Joguei raquetes, vôlei e aventurei-me no bodyboard. Fiz um piquenique e tive frio. Fiz outro piquenique e tive outra vez frio. Fui à televisão e não gostei. Atiraram-me duas vezes para a piscina. Bebi. Tive com amigos. Fiz uma tac às costas. Comi uma bola de berlim. Com creme. Dei beijos à minha gata. Chorei. Fiz panquecas com mel, bolo de chocolate e tarte de ameixa. Apanhei amoras. Fartei-me passado cinco minutos. Pensei roubar maçarocas. Tive vergonha. Vi filmes. Pus creme no pé. Passou. Deitei-me na relva. Deitei-me na areia. Fui aos saldos. Cantei no carro. Fugi da maré alta. Enganei-me no caminho. Comi sardinhas e caracóis. Pintei uma casa. Não a minha. Ri. Ri muito. Tive saudades. Não tive saudades.
Um bocadinho déprê
Os anos vão passando e conseguimos, normalmente, encontrar padrões. Em determinado mês sentimo-nos mais tristes, noutra altura mais alegres. Temos concentrações de aniversários em dado momento, ansiamos por certa época festiva ou ficamos cansados de uma estação do ano específica. Eu, claramente, destacava em mim a ânsia do fim do verão. Todos os anos era igual- cansada das férias ía com alegria para o primeiro dia de trabalho já a sonhar com a compra do material escolar e com os tons quentes da estação fria. Era o meu ansiado "ano novo". Era. A poucas horas de dar por terminadas as minhas férias tenho a certeza da mudança dada. Já preparei a roupa que irá preencher o meu corpo amanhã e não sei se a minha pele vai conseguir respirar. Duvido, até, que os meus pés se aguentem numa altura esquecida. Tenho o corpo moreno como nunca tive e não me recordo da última vez que usei um relógio, umas calças ou uns sapatos, até. O padrão interrompeu-se e desejava, também amanhã, mergulhar os pés na água fria e sentir os raios de sol nas pálpebras fechadas. Sei que caminharei arrastando-me lentamente e dando conta da passagem de cada minuto, cada hora. Mas também sei que caberá a mim manter o espírito ora presente na rotina que depressa se instalará. [Antes que este esquecimento dê lugar ao outro esquecimento].
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Favor, colocar aspas
Mamã, o que é morte por asfixia? Já alguém na nossa família morreu de morte por asfixia? Vamos a que praia? Eu não gosto dessa porque tem rochas. E eu não gosto daquela porque tem algas. O que trouxeste para comer? Não há sandes de ovo? A ameixa mancha? Mancha a roupa? E os dedos? Se eu lavar os dedos não sai? Alguém na nossa família já foi nadador-salvador? E médico? E polícia? E bombeiro? Alguém na nossa família já esteve na prisão? Quando é que vamos jantar ao restaurante dos caranguejos? Eu não gosto de pataniscas. E eu não gosto de feijão. E o que vamos fazer agora? Podemos ir jogar à bola? Podemos ir ao cinema? Eu quero comprar uma capa para o meu telemóvel ou uma prancha de surf. Quero esta mochila. Não, quero esta. Afinal quero esta. Quando eu for presidente, não vai existir peixe. Quer dizer, pode haver sushi mas peixe é que não. O avô está mesmo aqui? E os braços? E as pernas? E o pescoço? Podes pôr o CD da Violetta? Não, esta não. Põe a número cinco. Mais alto. Fecha a janela. Podemos ir ao Careca? Agora, vamos onde? Ela bebeu a água toda. Ele encheu a minha toalha de areia. Já podemos ir para a água? E agora, já podemos ir para a água. Já fizemos a digestão? Tenho frio. Olha eu a fazer um parafuso. Olha o meu salto. Mamã, vou fazer dez cambalhotas. Booomba. Podes fazer panquecas com mel? Faz-me uma Nestum. A minha é muito dura. O máximo que conseguires. A minha é líquida. Mamã, vou fazer-te um truque. Isto é uma seca.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
E assim
E assim têm passado os dias. Com um ritmo lento, com as músicas deles, areia nos pés e com uma calma que a sua idade já me permite.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Teoria
Há uma linha que separa- lá diz a publicidade e meia nação. Há uma linha que separa, sim, aquilo que dizemos e o que efetivamente fazemos. Falo por mim que pratico o contrário do que apregoo. Falo de crescimento, de promoção da autonomia e mais não sei quantas frases feitas mas, quando chega a hora de verdade, aperto-lhes a mão impedindo a tal independência. Hoje assistíamos a um miúdo bem mais pequeno que os meus a saltar com valentia para um mar que desconhecemos. Admirava-lhe a coragem e o desprendimento da mãe que fotografava do outro lado, num outro ponto alto das rochas. Pensava, em silêncio, como era incomum a sua ausência de medo. Tratava-se, afinal, de uma baía numa maré baixa mas com um fundo escuro e rochoso. O meu, após longos minutos de contemplação disse que o queria fazer. Queria saltar, vejam só! Com mensagens contraditórias disse-lhe que a ele não era permitido. Que para ele era perigoso. Perguntou-me porquê. Disse-lhe "porque és meu"....
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