domingo, 16 de novembro de 2014

Ele está a trabalhar {peanuts...}

Já: 
Corri três quilómetros com os miúdos, com um saco de pinhas às costas;
Fui às compras a pé e com duas crianças cansadas;
Fiz lasanha de atum e espinafres para o jantar, quiche de salsichas, queijo e fiambre para o almoço dos miúdos e uma parecida para mim- versão light-com espargos e atum;
Fiz gelatina e suspiros de chocolate (versão sem açúcar-acreditem em mim);
Revi mochilas e estendi a roupa;
Perguntei sobre os sistemas circulatório e respiratório;
Corrigi somas de horas, minutos e segundos, ao mesmo tempo que pedi para ouvir o verbo to be;
Ajeitei camas, roupas e passei vistoria pelas divisões.

São 16h de Domingo e questiono: 
Posso ir já para a cama?




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Inserir símbolo

É tão fácil comunicar assim! Um coraçãozinho colorido ali, um sorriso com língua de fora acolá, um boneco verde aos pulos... fácil, fácil. Qualquer pergunta tem resposta. Qualquer afirmação tem reação. A minha questão é: será mesmo alguma coisa? Estas não-respostas? São qualquer coisa- um vazio que nos vemos obrigados a decifrar. Ora bem, estou hipoteticamente doente. Partilho o meu estado. Recebo um sorriso. Vamos a isso. Pessoa do sorriso, o que é que queres dizer com isso? Estás feliz por eu estar doente? Achas piada à minha partilha? Ou estás disposta a trazer-me uma canja? Se eu tiver febre alta a meio da noite e se estiver sozinha, posso ligar-te? És pessoa para me levar ao hospital? Vais-me ligar a perguntar o que se passa? O que raio significa o teu sorriso? É um mundo de possibilidades! Na verdade, é quase um Euromilhões acertar na interpretação exata da intenção real de quem me enviou o sorriso. Contra mim falo que uso e abuso dos símbolos e respostas fofinhas. O que querem dizer? Não é a primeira vez que uma dessas pessoas que virtualmente me manda sorrisos e corações, frente a frente, não cospe símbolos sonoros. É quase um desconforto que se gera. Olha, ontem mandei-te três smiles mas na verdade nem te conheço bem. Ainda bem que estás no outro lado da estrada e posso fingir que não te vi. É estranho. É oco. É, mais uma vez, vazio. Acordo, muitas vezes, com imensos corações. Pego no telemóvel e lá estão eles, preenchendo o meu écran. E eu penso "simpático!" E depois penso, "bizarro!" Não sabem porque escrevi aquilo. Nem sabem porque coloquei aquela foto. Não sabem! Como podem enviar-me amor? Sim, é disso que falo. Enviar amor. Não se envia. Não se desenha. Não se faz num segundo. Amor, qualquer tipo de amor, sente-se. Vive-se. Comunica-se por todas as formas, verbais e não verbais- por quem faz sentido. Devia ser proibido enviar assim, gratuitamente. Sem, amor.  

sábado, 8 de novembro de 2014

Maternidade (s)

É tão simples quanto isto: como pais, não queremos que eles sofram. Não queremos que tenham febre, que lhes doa a barriga ou a garganta, não queremos que caiam ou que deitem sangue. Não suportamos que sejam postos de parte, gozados ou injustiçados. Tememos uma dor de amor, para a qual ainda foi inventado analgésico... Ansiamos pela sua eterna proteção. Quando disse à minha mãe que estava grávida pela primeira vez, estranhei o seu ar preocupado. Não vi uma ponta de alegria e essa ideia perseguiu-me. Entristeceu-me, na verdade. Quando a vi imediatamente depois de ser mãe, percebi. Chorava. Temia por mim. Pelo risco inerente, pelas minhas dores, pelas minhas expectativas. Não queria que eu sofresse. Estava a ser mãe e ainda não avó. Mas não somos só mães dos nossos filhos. Somos mães dos nossos pais, somos mães dos nossos irmãos. E hoje senti-me assim: mãe dele. Daquele homem feito, pouco mais novo do que eu. Sorri-lhe sempre ao mesmo tempo que fazia um discurso encenado de segurança e normalidade. Por dentro, estava igual à minha mãe. A chorar baixinho enquanto apelava à minha fé, enquanto suplicava a vigia do meu pai. A minha sobrinha nasceu e nasceu {de novo} também o meu irmão. Parabéns❤️


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mas um, tipo singular?

Às vezes questiono-me se terei sido criada com papas de carcaças embebidas em vinho ou mesmo com ração para animais de grande porte. Quando a minha querida nova nutricionista me questionou se eu queria um iogurte ou dois queijinhos triângulo, eu não consegui dar uma pronta resposta. Não percebi onde queria chegar... Retorqui um "por dia?" Tipo, por oposição a "de três em três horas"... A profissional da alimentação sorriu nervosamente (assustada) e deu-me a sentença- sim, por dia. E reconfirmei "por dia?"- sim. "Um iogurte?"- sim. "Mas se comer um queijinho ao pequeno-almoço, conta como um?"- sim. "É deduzido, então?"- sim. "Portanto, e é um ou outro?"- pois. "Dois está fora de questão?" - hum...

Eu vou sofrer mas, sinceramente, a equipa da EasySlim, que tantas expectativas deposita em mim, não vai ficar melhor...

*Eu vou dando notícias...

domingo, 2 de novembro de 2014

Vida complexa com coisas simples

O problema é querer escrever um tratado. A questão envolve palavras caras, frases complexas e ideias inovadoras. Uma inspiração, uma polémica, qualquer coisa. Não simples, extraordinária. O problema é esse. A vida- pelo menos a minha- não é assim. Hoje, enquanto corria com a Catarina, falava disso. A ausência de conteúdos pela presença de banalidades. O dia- a- dia. O pequeno-almoço aspirado sob os limites do tempo que é acelerado quando saltamos da cama, o nosso saber e competência que se divide pelas inúmeras tarefas, o almoço que foi o jantar, os objetivos a cumprir, o brio de os superar, a corrida ao supermercado, as receitas engendradas a olhar para as prateleiras, os banhos obrigados, os trabalhos de casa quando não terminados, as mochilas desfeitas e feitas, o jantar alinhavado, um discurso mecanizado "Como foi? Porque fizeste isso? Sentiste-te bem? Gostaste do almoço? O que queres vestir amanha?", uns minutos de vida alheia pela televisão, uns beijos rápidos pela noite já avançada. Não é um texto... é uma frase interminável! Uma frase que desafia as regras gramaticais mas que respeita a cadência dos meus tempos, dos nossos tempos. 
Aquele outro, escreveu sobre a felicidade das mulheres quando eram outras. Quando permaneciam em casa e o seu trabalho não remunerado se circunscrevia a cuidar dos seus. O cansaço dos meus dias, a força das minhas rotinas poderia despertar em mim um sentimento de identificação. Fácil, fácil. "Antes é que era!" Boas mães, boas mulheres, boas gestoras daquela que seria a nossa profissão natural. Às vezes, o resultados destes [novos] papéis deixam-nos assim, na dúvida. Mas não é verdade. Existem conteúdos, sim, muitos. As rotinas existem porque permitem a nossa estabilidade. As rotinas existem porque são necessárias à manutenção de uma vida organizada e ao sentimento de segurança. As rotinas dizem-nos que estamos bem e que o amanhã seguirá o plano que construímos diariamente. The big picture- é a soma dos nossos "não-conteúdos" permanentes. É desses que se faz a nossa história. E depois existem os pequenos momentos. Que acrescentam sal e pimenta, que aromatizam a vida e que nos dão folga à gravata. Uma festa a meio da semana, uma boa conversa com uma amiga em vez da corrida programada, um jantar desarrumado e barulhento, uma zanga, umas pazes, um novo desafio. 
Prefiro ser esta mulher. Esta mulher que se cansa, que refila, que desabafa. Mas esta mulher que tem conteúdos. Mesmo que sejam banais. Ou aparentam ser banais...

Uma objetiva. Uma foto programada. O Pau Storch e o Santi. Um momento inesperado, com muito conteúdo. 













sábado, 1 de novembro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Há quem escreva cartas ao Pai Natal...

... e há quem reúna argumentos...

Ou choques...

Voltamos aos padrões. Estou, tal e qual filme de cinema norte-americano, deitada num divã qualquer, a refletir em voz alta sobre os círculos da minha vida. Colmatando a ausência de psicanalista com barba cruzada com charme, exorcizo, pelas linhas virtuais, a consciência dos tais padrões. 
Modéstia à parte, eu era um pedaço de mau caminho. Discreta, tímida e sem grande interesse em impressionar, impressionava. Gostava de enamorar até me quererem namorar e depois fugia a sete pés. Mal o contrato era adjudicado, eu assustava-me com a empreitada e abandonava. Analogia pobre para uma situação real. E eu até gostava mas, quando a brincadeira passava a certeza, a realidade dos sentimentos, obrigava-me a um incómodo reset. Ultrapassada a questão [Dr. Barbudo e charmoso, guarde as receitas], a questão persiste. Quero o desafio e depois fujo do desafio. Escrevi que me lançaria no esforço da concretização dos meus objetivos. Enchi-me de lata e não pensei. Enviei os emails e esperei. Aceitaram o namoro! As minhas tentativas tiverem retorno e aqui estou eu- petrificada- a achar... que destruir o círculo e iniciar uma linha recta, é demasiado desconfortável. Aqui estou eu a achar que não consigo. E a sentir que volto aos meus 15 anos e digo "não", quando só não tinha coragem para dizer "sim".
Bolas, Dr., podem ser drogas. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Enquanto dissermos os nossos nomes parvos

Ele liga-me todos os dias às 13h00. Invariavelmente estou acompanhada e atendo-o com atenção. Chamo-o pelo nome, com esforço consciente para não verbalizar o nosso habitual. Não há lugar a "querido", "amor", "xuxuzinho" ou outro termo comum. Os nossos nomes são parvos. E quando eu digo "parvos", quero dizer que são verdadeiramente idiotas. Cada vez que atendo o telefone, faço-o, assim, com cautela. Para que não o ouçam, para que eu não me esqueça de dizer "Tiago". Distante, robótica. Depois, invariavelmente, refila comigo "não me ligas" e eu rio-me. Respondo-lhe que tenho mais do que fazer e ele ri-se. Desligamos. Nas horas que se seguem combinamos quem vai buscar quem, as compras, os quilómetros a correr, a cor da roupa a lavar, a ementa do jantar- toda uma produção naquela que é a nossa empresa. Aquela que construímos de raiz e cuidamos todos os dias. Horário non stop, com um verdadeiro amor à camisola. Há dias em que a máquina emperra, que os resultados nos deixam apreensivos e os nomes, as brincadeiras e os sorrisos dão lugar à frustação, ao medo e à insegurança. Mas na manhã seguinte, abrimos a porta outra vez e enfrentamos mais um dia. 
Chamem-nos antiquados, acomodados ou tradicionais, chamem-nos o que quiserem. Tentamos todos os dias. Todos os dias. E fazemo-lo não por teimosia, inércia ou obrigação. Fazemo-lo porque acreditamos.


É o amor!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Publicidade da boa

Aqui quem ganha são as crianças e suas famílias. Favor gostar e partilhar.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Em bom inglês "Rock Person"

O meu marido acordou-me a relatar um mirabolante sonho que envolvia ovnis e polícia. O nosso filho ressonava ao nosso lado depois de lá aparecer, a meio da noite, para pedir para comprarmos cinco carteirinhas de cromos. Nas palavras da minha filha, "não dormiu nem um minuto!" Foi à nossa cama para a confortarmos de um pesadelo com dragões mas encontrou uma sobrelotação e foi deitar-se na cama do irmão. Eu? Uma pedra em forma de pessoa...

domingo, 12 de outubro de 2014

Domingo é isto


[devagar]

Qualquer dia morro. Enquanto isso... emails enviados

Lembro-me exatamente do dia em que percebi que todas as pessoas morriam. Que a vida obrigatoriamente acabava. Via desenhos animados sobre o corpo humano e naquele "Era uma Vida", o coração estava no cerne da mensagem. O coração pára e tudo o resto morre. Senti um murro no estômago lançado por aqueles homenzinhos de barba branca. Deitei-me não serena. Pousava a pequena mão em cima do sítio onde imaginava que estaria o motor e mantinha-me atenta ao seu ritmo. Lembro-me de estar escuro e esforçar-me por perceber se tinha parado ou não. Tentava ouvi-lo quando não o sentia sob a minhas palmas. Quando o silêncio era absoluto aguardava o meu destino mortal mas nada acontecia. Acabava por adormecer acordando sobressaltada, não sei quanto tempo depois, só para verificar se ainda vivia. Não sei quantos dias levei a aguardar a minha morte iminente mas sei que mudou algo em mim. Estranho. Pequena percebi que não vivíamos para sempre. Enquanto que outros deliravam com um pai natal que eu sabia ser inexistente, eu lidava com a consciência de um corpo que funcionava mecanicamente, podendo desligar-se a qualquer momento. Eu posso morrer? Estranho. Todos o sabemos e estamos constantemente a esquecer-nos. Eu esqueço-me sistematicamente que um dia já não estou cá. Que o mundo continua. E eu não. Até que... lembro-me da minha finitude e, arrisco. Assim acabei de fazer! Venham daí as respostas! Positivas, por favor...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mudar de vida ou mudar a vida

Tenho um grande amigo que não anda bem. Não anda. Uns dias mais alegre, uns dias absolutamente triste, outros apenas a vaguear- só a existir. Nos poucos minutos que estamos juntos, adivinhando previamente a altura da montanha russa, vou preparando o meu sábio e burro discurso. Ora aconselho aquele caminho, ora recomendo aquela estrada. Às vezes, muitas vezes, desisto. Simplesmente, não sei. Fico calada e ouço, apenas. Não sou boa a descascar cebolas ou a montar puzzles mentais. Sou péssima. E ouço. 
Não tenho apenas um amigo. Falo de uma personagem que é maior do que uma única pessoa. Tenho amigos que me preocupam, tenho familiares que me tiram o sono. Tenho, afinal, pessoas que gostaria de carregar ao colo, pôr na cama e aconchegar os lençóis. Colocar na mesa de cabeceira um compal de pêssego e um croissant misto, como o meu pai me fazia quando eu estava doente, sussurrando que já vai passar. Mas, a cabeça não funciona assim. Encerra em si, as perguntas, as dúvidas, as respostas e os medos. E às vezes, finge que está vazia. Mas não está. O Pedro hoje perguntava-me "é esse o teu objetivo?". "É mesmo?" O Pedro sabia que eu sabia a resposta. Que estava cá guardada num qualquer recanto cerebral. Mas o Pedro sabe descascar cebolas e o Pedro é bom a montar puzzles mentais. E o que eu gostava era que, em vez de tentar encontrar, tantas vezes, caminhos e soluções para aqueles de quem eu gosto, e para mim própria, gostava de lhes saber comunicar assim-bem- que talvez a solução não seja mudar de vida, mas mudar a vida. Talvez assim, também eu acreditasse.
Não, Pedro, não é esse o meu objetivo. 
Obrigada!


terça-feira, 7 de outubro de 2014

E interromper a paz, é feio!

Se existe coisa que me custa ouvir é quando alguém me questiona sobre a continuidade do blog. Porque não escrevo, claro está. Ou escrevo pouco. É uma pergunta legítima que me apoquenta pelo simples facto de ser feita mas, acima de tudo, porque encerra em si uma chamada de atenção. É recorrente dizerem-me isto. Não entendem o meu silêncio, a minha quietude e, num ato que, acredito -tenho a certeza- ser de carinho, lá vem a questão. É como se me casasse e não fizesse um filho. Mexe comigo porque, na verdade, não me sinto bem quando não o faço. Nem sempre me apetece escrever. Mas, mesmo não apetecendo, esta inércia literária faz-se acompanhar de frustração. Sei que há quem desista de aparecer por cá, ou há mesmo quem questione porque não fui àquele evento, ou àquela reportagem televisiva. E não entendem. E constroem cenários e histórias. Mas eu entendo. E estou certa dos riscos que vou acumulando. Ou das oportunidades que vou perdendo. Mas, cada vez estou mais certa das minhas pequenas decisões. Dos "nãos" que vou verbalizando. Porque cada um deles, representa um respeito por mim própria, por aquilo que é a minha vontade, por aquilo a que eu escolho dar o meu tempo. Sim, vou perdendo mas também vou ganhando muito. 
Hoje dei um "não" grande, importante. E estou feliz. Porque o verbalizei, confrontei e lidei com as consequências. E conheci uma boa paz. Aquele tipo de paz que me fez ter vontade de aparecer aqui. De escrever-vos que detesto fazer dieta no inverno (e no verão também... E no outono é horrível e na primavera, proibido), que cortei o cabelo muito, muito, que preciso de um patrocínio para roupa quente e que estou sozinha em casa por uns minutos e não estou a fazer nada. Nada! Nem o jantar. Na verdade estou deitada na cama, com a casa virada do avesso, enquanto o agregado familiar enfrenta um final de dia no supermercado. Mas a pessoa está fraquinha da dieta e com frio do cabelo inexistente... e a pessoa está a gozar a sua paz...

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Pequena adulta

Quando passamos a ser mães, parece que deixamos de ser filhas. É uma coisa meio estranha. A sensação é de que atravessamos uma ponte quebradiça, por cima de um desfiladeiro sem fim, para um outro lado qualquer. De repente, crescemos e passamos a cuidar, em vez de sermos cuidadas, somos donas e senhoras, como quando, a brincar, as imitávamos vezes sem fim. E repetimos gestos, falas, imitamos sons e músicas de embalar. Vestimos os bebés como vestimos os bonecos e andamos, assim, em círculos. Senti isto. Esta alma cheia e emproada no meu novo papel e senti-me a atravessar o desfiladeiro como se o coyote dos desenhos animados me perseguisse. Não atravessei para o outro lado propriamente triste ou aflita mas tive muita consciência desse ritual silencioso. Dessa quase separação. Talvez por esta noção tão presente, vejo-me a regressar muitas vezes ao outro lado. "Preciso falar com a minha mamã. Porquê, mãe? Porque é a minha mamã, tal como eu sou vossa." Para eles é estranho. Para mim, não. Às vezes-muitas vezes- ainda preciso muito dela.

sábado, 27 de setembro de 2014

[Gostas de mim?], o desafio da Raquel

A Raquel lançou-me um desafio: escrever sobre mim. Já passaram uns dias e sempre que penso numa introdução, tenho tendência a escrever linhas mentais sobre... ela... Talvez diga logo à partida, algo sobre a minha personalidade. Tenho dificuldade em manter o foco na minha pessoa. Quase uma vergonha, como se escrever sobre mim fosse um exacerbado auto-elogio que perde aquela sensação boa de resultar da perceção de outra pessoa. Assim, farei o que me parece mais inteligente. Escreverei sobre mim e aguardarei, serenamente, um reforço positivo da vossa parte. E como decisão estratégica que é, eliminarei comentários negativos... [a pessoa vai aprendendo]

1. O que sai sempre contigo de casa?
As chaves. Sempre as chaves. Dentro da mala, enfiadas no bolso ou amarradas às calças de corrida, nunca me esqueço delas. Venho de uma altura em que, de quando em vez, me via obrigada a sentar-me nas escadas do prédio. Sem telemóveis e meios ultramodernos de comunicação, se tinha o azar de me esquecer delas -das chaves- tinha de me sujeitar a arcaicas estratégias de enfrentar o infortúnio. A primeira reação era a busca ativa. Depois de vasculhar a mochila, vasculhava as ruas. Com quatro irmãos como solução, procurava na sala de jogos, no café por detrás da escola, na praceta de cima, na praceta de baixo, na praceta do lado. Perguntava aqui e ali. Se nem a quantidade de possibilidades me safava, sentava-me no mármore frio. Olhava para a paragem que trazia o autocarro da minha mãe. Dava a volta pela rotunda e nesse momento eu tentava adivinhar-lhe a presença num qualquer lugar do 48. Lá vinha ela. Com as chaves. Nunca saio sem as chaves. 

2. Qual o teu animal favorito?
Não gosto desta pergunta. Sinto que é a mesma coisa que me perguntarem qual a minha cor preferida ou a minha comida de eleição. Não há uma resposta. Gosto de castanho no inverno e adoro branco com o azul da ganga, no verão. Gosto de caril de frango porque sabe ao amor dos meus pais e gosto de founde de carne porque é sinónimo de amigos e confusão. Não há uma resposta. Animais? Gosto dos meus animais. Da minha Bichinha que deixou um espaço vazio dentro de mim. Gosto do Riscas que dei à minha mãe e que me conforta porque a conforta. Gosto da minha Maggie porque me alenta com o cheiro do meu pai. Gosto de gatos. Mas podiam ser cães ou perus.

3. Qual o teu sapato preferido?
A minha resposta é "o pequeno". Os sapatos dos meus filhos- no plural. Aqueles que eu lhes comprei quando ainda comiam de duas em duas horas. Minúsculos e perfeitos na réplica. Sem préstimo para além da minha vaidade. Sem dúvida, esta é a minha fácil resposta. O resto- os meus- não têm interesse nenhum e muito menos memória. Vão alinhando com a moda, em termos de cor, feitio e altura e morrem com o uso ou pela traição de uma nova tendência.

4. Produto de maquilhagem indispensável?
Agora que confessei não ter nenhum fascínio e fixação com sapatos e destruí a minha imagem feminina, vou garantir um suicídio efetivo com a minha próxima resposta. Não tenho... preparem-se... Maquilhagem indispensável. Quase que me encolhi agora como se aguardasse pauladas nas minhas costas. Detesto batom. Não controlo o batom. Receio que vá parar à bochecha ou à minha mão e depois à minha camisa branca. Não acho que acrescenta nada a cor natural do meu corpo. Lábios muito vermelhos depois de comer, rosa nos restantes tempos. Gosto de os mordiscar e não ficar a pensar se a cor se mudou para a superfície branca dos dentes, como uma qualquer fábrica com mão de obra mais barata. Não gosto de batom, ponto. O rímel é incompatível com a miopia e não há nada a fazer. Lentes de contacto não se dão bem com pós e pózinhos. Base. Bem, já usei. Quando casei, talvez. Faz-me confusão. No fundo tenho medo de ter a cara com a cor da Caraíbas e o pescoço e restantes membros com os tons dos Alpes suíços. Gosto de lápis nos olhos. Cor castanha, sempre. Mas não me importo de não fazer estas linhas. Faço quando me lembro. Acho que me fazem bonita. Esqueço os olhos de formiga e engano-me com um ar mais rasgado que dura, sensivelmente até às onze da manhã.
[Se ficou decepcionado com estas respostas, esta leitura terminou aqui. Se aguenta mais uns pormenores estranhos,  avance.]

5. Qual o teu maior sonho?
Chateia-me este singular. Uma pessoa não tem UM sonho. Vai construindo os seus castelos nas nuvens, a cada 5 minutos, a cada dez centímetros adquiridos. Vai achando que aquilo é um sonho e depois de o ter na mão, sente que afinal era um desejo. Um ímpeto. Olhando para trás, já tive muitos. Ter uma boneca, um gato, ser bailarina, entrar na faculdade, segurar a chave da minha casa, conhecer o meu bebé, conhecer o outro bebé, escrever um livro, não perder alguém, conseguir ter -só - saudades de alguém. Mas, lembro-me, desde sempre, de desenhar casas. Casas mesmo. Com uma porta térrea, uma árvore e um jardim. Com flores. Se tivesse de eleger um sonho, escolhia esta casa. Onde caberiam os meus bebés, os gatos, os sapatos e até o batom.

6. Qual o teu maior defeito?
Dizer o maior defeito é demasiado. É como dar-vos a chave. Ensinar-vos a ter tudo [ou quase tudo de mim]. Vou dizer "não" mas não vos deixo sem resposta. Vou dar algumas pistas, coisas isoladas, que somadas, constituem a "big picture". Drama queen, só a mim é que as coisas acontecem. De neura fácil. Com a mania que tudo tem a ver comigo. Não é a terra que dá a volta ao sol, é o sol que às vezes circula pelo meu planeta e só não me ilumina a mim. 
[Se quiser parar de ler agora, eu entendo.]

7. O que te irrita nas pessoas?
Fácil. Muita coisa. Não gosto de pessoas más. Não percebo as pessoas más. O prazer que daí advém.... Gosto de fingir que não sei. Aceito os abraços e as frases fofinhas e divirto-me com a sua esperteza curta. Adoro observar.
Não gosto de pessoas que põem as outras para baixo, para se sentirem para cima. Tenho pena dessas. Ó vida triste! 
Resumido aquilo que não gosto, chego às irritações. As manias. A arrogância e altivez. A postura superior confundida com uma suposta segurança. Quem mexe o café sonoramente, durante dez minutos. Quem só revela o melhor. Quem mastiga de boca aberta. Ou não responde às mensagens. Não gosto de tanta coisa. Mas, convenhamos, às vezes também não gosto muito de mim. Quem é que nunca fez nada disto? [Excluindo a parte da boca aberta, depois de aprender a usar a colher]

8. Qual a tua comida preferida?
Eu sabia que havíamos de chegar aqui. 
Gosto de quase tudo, infelizmente a verdade é esta. Gosto da comida que me trás memórias e gosto de comida, só porque sim. Adoro pão. Branco, escuro, com sementes ou às bolinhas. Adoro. O queijo dá-me prazer. Reviro os olhos, saboreio os paladares fortes e não excluo quase nenhum. Gosto de bolos. Olho para a montra e não decido. Gosto de todos e sinto-me capaz de engolir mais do que um. Ia um pastel de nata, um mil folhas e um palmier coberto. Também gosto de tarte de amêndoa ou de maçã. Se forem as duas, ainda melhor. Bolos caseiros também são a minha onda. E é quase um oceano. E também gosto de salgados. Não há cá opção A em detrimento de opção B. Empadinhas, rissóis, pastéis de massa tenra. São onze e meia e já penso no almoço... Gosto de bifes com batatas fritas, no Cantinho e arroz de polvo no Eduardo das Conquilhas. Adoro o sushi no Sushi Café e a picanha com alho na Mercearia Vencedora. Se estou triste, consolo-me com comida, se o sentimento é de alegria, festejo com... comida. Uma cabeça gorda, nada a fazer. 

9. Dolce ou salgado?
É pá! Os dois! Juntos de preferência. Não só na comida, como na vida. Contrastes bons, desequilíbrios salutares, passo à frente, passo atrás. Tudo menos o cinzento. Tudo menos o azedo e o amargo. 
Aceito acidez, q.b..

10. O que te deixa feliz?
Muita coisa deixa-me feliz e saber reconhecer isso, faz parte dessa felicidade. Os meus filhos aconchegados um no outro, a saúde da minha família, roupa passada a ferro, torradas com queijo queru, o bem-estar de quem gosto, uma mensagem inesperada, música, leite creme com açúcar queimado, o chão lavado, um elogio, dois elogios, fotografias bonitas, uma boa piada, o meu sofá com manta, roupa nova, ir ao cinema, chatear o meu homem até ao seu suspiro, boas notas, os pés na água do mar, gelado de caramelo, o silêncio, a boa confusão, tostas com molho de sapateira, flores mesmo que depois morram, dar colo, receber colo. 


Fogo, estou cansada. É bom que gostem de mim!

[nota importante: à superfície somos todos lindos e espectaculares, à lupa...todos somos tremendamente estranhos.]



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

|Sinto-a como ela me sente|

Agradeço muitas vezes. Noto que o faço. Agradeço se deixam o meu carro passar e agradeço depois, por ter efetivamente passado. No fundo, acho que nunca é demais a demonstração de gratidão, principalmente quando apuramos a nossa perceção sobre aquilo que faz efectivamente sentido. A Sofia arrancou-me hoje um sorriso, num contexto onde não era suposto fazê-lo. Sorri com vontade. Sorri com emoção. Pelo que escreveu sobre mim no seu blog mas acima de tudo, pela sensação maravilhosa de saber que nos sentimos mutuamente. Obrigada pelo teu carinho. Obrigada muitas vezes. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O melhor é sempre a verdade

Ando aqui às voltas para escrever este post. A minha ligação com a publicidade não é clara. Se um dia acho que não devo utilizar este espaço para promover algo que me pediram ou simplesmente me ofereceram, noutro acho que devo fazê-lo porque de facto foi resultado de uma gentileza ou representou mesmo um ganho para mim. Mas mesmo quando assim penso, a dificuldade não diminui. Vagueio entre uma mensagem encapotada ou um aviso publicitário descarado. A maior parte das vezes não sei mesmo o que fazer e, na verdade, nada faço. Hoje, enquanto refletia sobre o caminho a percorrer e alimentava estas minhas dúvidas existenciais (como se este espaço virtual fosse um tratado internacional, consultado pelas mais altas instâncias e doutrina obrigatória em diversos níveis de ensino) conclui que o melhor mesmo era dizer a verdade. Dizer que hoje fui maravilhosamente bem recebida pela equipa da Absorvit, que passei uma tarde descontraída a beber chá gelado de menta no lindo Hotel Villa Itália & Spa Cascais e que me ri imenso com as nossas conversas atropeladas e cúmplices. Dizer que adorei o convite da Sofia, que a sinto como ela me sente [não sei explicar de outro modo] e que fiquei encantada com a possibilidade que me apresentaram. Aceitei com vergonha pela riqueza da oferta e tenho a certeza que falarei mais tarde, com propriedade, dos benefícios daí resultantes. Saí com um saco cheio de coisas boas para mim e para a minha família e com o coração cheio do mimo que me foi proporcionado. Se isto é publicidade? É. Mas é publicidade da boa. Porque é verdade.