quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Quando o absurdo não é o mais estranho

Véspera de Natal. Saio de casa da minha mãe julgando-a mesmo atrás de mim. Ela volta atrás para ir buscar algo esquecido e vou descendo. Entro no carro e espero. Espero mais um bocado, até que estranho. Volto ao prédio e encontro-a mais a D. Helena- a vizinha do terceiro andar. Com 92 anos está caída entre o primeiro andar e o piso térreo. Corro para avisar a filha que espera no carro mal estacionado, com o motor a trabalhar. Volto em passo acelerado para fazer não sei bem o quê. Tenho medo de lhe tocar e magoar ainda mais mas sigo a vontade da filha. Pego-a ao colo como a um meu bebé. Uma pena. Sinto os seus ossos e o corpo contraído. Pouso-a no chão e apoio-a sobre mim e sobre a minha mãe. Ajudamo-la a colocar-se de pé e a descer o lance que faltava. Tentamos que caminhe sozinha porque assim nos é pedido. Não se aguenta. O desiquilibrio do corpo assemelha-se à desorientação do pensamento. Ainda assim, vai-me dizendo que está muito feliz por me rever, mesmo sob aquelas circunstâncias. A filha nada diz. Conduz as nossas ações e conduz mais tarde o carro ainda quente. Ficamos assim- eu e a minha mãe- naquele silêncio. Na censura muda perante as ações invisíveis e pela apatia demonstrada. Ficamos assim- eu e a minha mãe- num similar desconcerto, com preocupação pelas dores vindouras, pelos ferimentos possíveis, pela frieza que não vem do rigoroso inverno. Ficamos assim e continuamos. 
Quando hoje entrei em casa da minha mãe, quase não lhe disse olá. Perguntei pela D. Helena que me relatou vezes sem fim, as vezes que me pegou ao colo {nunca pensei devolver-lhe o gesto}. Encolheu-me os ombros. Não a viu, nem sempre a vê. Nada sabe. Ficámos assim- eu e a minha mãe- até que tocou a campainha. Era a outra vizinha, a Saudade. Vinha com uma incumbência, sob um sorriso nervoso. A D. Helena havia transmitido a sua indignação. Tinha caído, era certo, mas, nas suas palavras, carregava sacos com prendas de Natal. Sacos que desapareceram. Sacos que foram roubados à sua existência. Sacos que fazem, agora, a felicidade de quem por ela havia passado, ainda caída no chão. E ficámos assim- eu e a minha mãe- com sacos imaginários nas mãos, sorrindo pelo "mal" da D. Helena. O estranho é tudo o resto. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

Gostei muito, ó Pés!


http://pesnosofa.blogspot.pt/2014/12/best-worst-of-2014-posts.html?m=1

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

2015 "eu vou-lhe usar"

Seis da manhã. Não precisava mas, acordei. Carregava os meus filhos pelas escadas do prédio, segundos antes de irromperem, com maldade, pela minha porta. Acordei. Não voltarei a adormecer, eu sei, principalmente porque os pensamentos surgiram tão rápidos como os ladrões.  Estava a olhar para trás, a distinguir entre um ano e outro. Há coisas que não me recordo aonde pertencem. Outras há que não tenho forma de esquecer, pertencem a este balanço. 
Este ano foi par, com números redondos como gosto. A maior descoberta foi o orgulho. Um orgulho bom, motivador. Descobri que é o que me desafia e o que me dá prazer. Percebi melhor. Percebo-me melhor.  Meti-me na aventura de um livro e aconteceu mesmo. Orgulho. Corri de Algés ao Cais do Sodré e voltei. Contei os 15 km aos metros. Orgulho. Descobri outra coisa. Achava que o "mais" era muito distante ou difícil. Descobri que o "ser mais" é tão simples como "o querer mais". Lutei por uma oportunidade na escrita e, simplesmente, consegui. Não a aproveitei, por decisão. Descobri que não posso fazer tudo, sob pena de deixar algo para trás. Fechei um ciclo profissional e fiquei tranquila. Outro convite e mais orgulho. Mantive-me no caminho. Vi nascer a Margarida. Sem palavras. Chorei com a Susana, com os pés largados na marina. Chorámos as duas e foi bom. Ri com muitas pessoas. Descobri, também, que sou muito mais forte. Sorri perante a ameaça, disse adeus a quem se afastou e mantive a porta aberta a quem escolhi. Tranquila. Olhei-me ao espelho e não desviei. Cresci em vaidade, também. Olhei para o contorno da minha anca, passei a mão por mim. Gostei. Olhei para dentro. Continuo eu. Boa rapariga que gosta dos seus. E também dos outros. Gostar é a minha maior virtude, acho eu. Ajudei quem consegui ajudar, ajudei quem me deixou e ajudei-me. Continuo neste equilibrismo a contar com os braços de alguém que, por sua vez, também se suporta em mim mas, entendo que a vida é assim- interligada, dependente e não isolada. Continuo com muitas saudades do meu pai. A percorrer todos os momentos, num loop que criei e a imaginar tudo o que é novo como se estivesse aqui. Cresceu o medo de perder mais alguém e descobri que isso é possível, como se nunca me tivesse ocorrido. Entendo-o como uma benção. Escrevi menos porque me apeteceu menos partilhar. Vivi igual. Umas vezes mais outras vezes menos. Escolhi bem onde queria gastar o meu tempo. Preocupei-me com a minha filha. Rezei. Mantive-me ali como se não me assustasse mas também sou pequena, ainda. Tudo bem. O meu filho pediu para ir a Paris- prenda de Natal. Vamos ficar por aqui. Descobri que estamos no sítio certo. 2014 foi um bom ano.








segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Com tudo

O inverno que eu gosto. Na rua. Com frio. Com sol. Com tudo. 










sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Uma profunda reflexão. Uma brilhante conclusão.

Ontem, uma colega  dizia-me que, quando o filho tinha cinco anos, não conseguia dar-lhe um determinado comprimido, por ser demasiado grande. Agora, com dez, já era possível porque "felizmente, são mais pequeninos". Achei piada. Como calcularão, o medicamento é o mesmo. Apenas mudou a perceção da mãe tal como muda a nossa, diariamente, face a tantas coisas. 
Esta semana fui a Lisboa. Resolvi, porque resolvi, que viria para casa de elétrico. Daqueles antigos, com chão de madeira e janelas empenadas. Daqueles que param muitas vezes e andam devagar e, que na minha mente, são perfeitos para um final de dia na cidade. Imaginei-me sentada naquele estofo castanho, iluminada pela luz do entardecer, a tirar poéticas fotos para depois partilhar exaustivamente, qual amante da minha Lisboa. 
Afinal o comprimido não era grande, nem pequeno. Era quase uma injeção de penicilina. Galguei meia cidade até chegar à estação do Cais do Sodré, caminhei pela rua quase deserta e acelerei o passo perante os impropérios de um homem que me seguia e que encarnava o perfil tipo de um cinematográfico serial killer. Cheguei à paragem. Lembrei-me que era o 15 e muni-me daquele cartão verde que uso quando me armo em jovem e vou a um qualquer concerto. Saquei de umas poucas moedas e acenei ao sr. condutor de forma esquisita. Tenho de fazer aqui um parênteses. {Na verdade, eu não sabia como raio é que havia de avisar que pretendia beneficiar daquele serviço. No meu tempo, quando andava de transportes públicos, acenava assim de lado, com um ou dois dedos, como estava instituído. Ora, eu não sabia se os tempos agora ditavam outras regras. Quiçá um gesto mais moderno, um like gestual, as mãos em forma de coração, uma selfie com o bilhete... não sei. A verdade é que não queria dar parte fraca. Lá vinha o eléctrico e eu simulei um gesto. Foi qualquer coisa como um braço levantado e uma mão descontrolada, tipo espasmo. Certo é que parou.} Fim de parênteses. Bom, continuando, apresentei-me ao Sr. e mostrei-lhe, qual incapaz, o cartão verde e as moedas. Olhá-mo-nos mutuamente, como um turista e um indígena da floresta Amazónica. Disse que queria pagar um bilhete e perguntei como se fazia. A reação foi semelhante à entrega do IRS, numa repartição das finanças, exatamente às 17h28. Bufou e murmurou uma qualquer explicação. Sacou-me três moedas de euro e esperei que me devolvesse duas. Nada. Senti que poderia ter comprado, com aquele dinheiro, um bife de vaca e ter feito o percurso desejado com os meus ténis maravilha. Enfim, mas esperava-me o paraíso. Ou não. Virei-me e parei nas costas do Sr. Não andei mais. Tive o tempo todo a fazer força, como se fosse ter um terceiro filho, para evitar que o profissional sentisse as minhas maminhas no seu pescoço e casaco de cabedal. Com a mala na mão, o casaco no braço, o cachecol a limitar a minha margem de manobra e o telemóvel entre os dedos, fiquei automaticamente apta para ingressar no Circle du Solei. Tirei uma foto e a injeção de penicilina passou a comprimido em cápsula. Dei uns passinhos e fiquei colada a turista espanhola com perna engessada (espetada, portanto). A bendita queria, porque queria, saber qual a paragem mais próxima da Torre de Belém. Ora, eu sorri muitas vezes e fingi ser proveniente da África do Sul. O Sr. mais próximo, que também estava colado a outra parte do meu corpo, resmungava "três paragens". A espanhola não percebia e ele gritava "três". Eu desviava-me para que a espanhola engessada conseguisse visualizar os três dedos do senhor que mais parecia estarem prestes a ser enfiados nos olhos da dita. Enquanto me desviava ouvia a conversa de uns miúdos que tinham a altura dos meus filhos. Ao invés de falarem da Violetta ou do Inspector Max, como eu esperava, dissertavam sobre a arte de fazer o amor, com linguagem do falecido canal RTL, após a meia-noite. E faziam e aconteciam e a espanhola de perna para cima e o homem com os dedos em riste, e eu em pé agarrada a um tubo de aço inoxidável. Uma cenaça. A espanhola levantou-se. E com ela seguiram-se mais duas e mais as muletas e o homem gritou que era ali. O condutor exigia que se despachassem. Os miúdos babavam para cima de uma moçoila, eu reparava no sinal que alertava para os carteiristas e o sol já nem aparecia. E voltou a injeção. Isto tudo para dizer que, isto das perceções pode ser uma merda.



domingo, 30 de novembro de 2014

O melhor de todos os meus dias

As dores fazem destas coisas. Obrigam-nos a focar, a olhar em frente. Forçam-nos a um esquecimento deliberado e a um presente que seleccionamos. As dores fizeram-me ser assim. As passadas, as antigas e as ainda abertas. Tento não me lembrar delas mas, sempre que as malditas são mais fortes do que a minha determinação, faço o pino, um mortal encarpado e uma roda seguida de esparregata. O sentido figurado do exercício não é mais do que parar um pouco e lembrar-me de tudo o que tenho de bom. Faço-o diariamente, faço-o muitas vezes, no meu silêncio. E agradeço. Porque tenho mesmo de agradecer. Hoje faço-o de modo a que me ouçam.
Obrigada pelo vosso carinho. Pela vossa amizade. Por encolherem os ombros pelas minhas parvoíces ao mesmo tempo que esperam por mais. Por se rirem comigo. Por saberem estar em silêncio quando não consigo ouvir. Por ralharem comigo e por me elogiarem quando eu me recuso a ver. Por estarem comigo. Porque sim. 
Hoje é o dia do meu aniversário. Na verdade, não interessa nada. Porque recebo todos os outros dias. Obrigada!









{Obrigada, meu irmão, por fazeres anos comigo. E por fazeres sempre na tua casa... 💗}

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

4x___= 1000

Lembro-me bem destas contas. Lembro-me de olhar para cima, com o lápis roído na boca, a imaginar o número 100... depois o 200... e no 300 já era demais. Lembro-me bem de escrever de lado, bem pequenino, num rascunho que ainda não conhecia. Ía tentando até chegar ao desejado resultado. Lembro-me bem deste método- ainda primário- de ir por tentativas. Mas depois vamos crescendo e numa idade de prata, achamos, presunçosamente, que as soluções aparecem instantaneamente na cabeça. 4x250=1000, é claro. É ridiculamente claro. Eis, senão, quando a equação não dá mil. 250+250+250+250 é igual a outra coisa qualquer que foge àquilo que aprendemos, àquilo que nos disseram, àquilo em que acreditávamos. E partimos do zero. E voltamos ao rascunho. E pedimos ajuda, se necessário. 
Ir por tentativas não é coisa de crianças. Ir por tentativas é coisa de adultos. De gente crescida que julga que sabe tudo. Eu não sei. Vou tentando.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Grávidas chamadas à receção!

Eles procuram 200 mulheres grávidas e enviaram-me um email. Recorrendo àquele princípio basilar do "passa ao outro e não ao mesmo", divulgo a oportunidade. Trata-se de uma campanha de experimentação de produtos da Johnson’s® baby, levada a cabo pela comunidade youzz™, em Portugal.
Como participar? Fácil, fácil! É seguir os passos que me foram transmitidos:


1)    Inscrever na youzz™ através do link http://youzz.net/PORTUGAL/registration/default/;
2)    Seguir o link  de ativação, através do e-mail que se recebe após o registo;
3)    Fazer login na youzz™ e, depois disso, preencher o questionário de qualificação que permite apurar todas as mulheres que têm o perfil que a marca pretende, através do link http://youzz.net/PORTUGAL/survey/show/survey_id/2214/;
4)    Preencher os campos de “O meu perfil” em http://youzz.net/PORTUGAL/profile//.


Dizem-me, ainda, que quando um youzzer™ é selecionado para participar numa campanha, recebe um e-mail na sua caixa de entrada com todas as indicações necessárias. Já a participar na campanha, cada youzzer™ recebe gratuitamente um kit com produtos youzz™/Johnson’s® baby (YEAHHH) com conteúdos para informação e experimentação.
Qualquer dúvida: membros.portugal@youzz.net.



Eu? Aguardo uma campanha de kits de viagens ou de sushi ou de roupas ou de carros ou de casas na praia ou de...

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Querida filha que acabaste de entrar na idade do armário

Lembra-te que eu estive treze horas em trabalho de parto após andar nove meses a arrastar-me, qual foca. Recorda-te que tive dores excruciantes que quase me levavam ao desespero. Não desconsideres a pancada que dei na cama de hospital logo após aquele toquezinho meigo capaz de levar uma formiga a parir um elefante. Nem te vou elucidar acerca das miudezas privadas e dos tempos que levei com uma cinta até ao pescoço, na ambição de recuperar uma tonicidade perdida. Lembra-te, filha, que choraste todas noites do teu primeiro mês de vida. Que te fiz ginastica, qual rã, experimentei bicos simulados, tetinas supostamente naturais, xaropes doces e mimos afins. Que cantei músicas de embalar até eu própria adormecer e fiz vozes de falsete vezes sem fim. Recorda-te que cheguei a escorregar da tua cama para sair de gatas tal o desespero de não ser ouvida e que retornei quase todas as vezes perante os teus... direi lamentos. Que misturei a história do lobo mau, com a da carochinha e pus o João Ratão a matar com pedras a avózinha. Que te mudei a roupa a cada bolsar [ou algo pior] com o mesmo carinho que aspirei os teus vestígios nasais. Que dormi ao teu lado a cada febre, a cada pesadelo, a cada carinho solicitado. Que te transportei sobre os meus braços e que te embalei junto a mim. Que chorei às escondidas quando te sentiste pela primeira vez triste -como as pessoas grandes sentem- e que me impedi de te defender das injustiças que terás sempre de enfrentar. Recorda-te que caminhei ao teu lado nos primeiros dias de escola e me afastei nos seguintes. Que te contei segredos só nossos e ouvi os teus. Que pintei o teu quarto de rosa e mudei para o azul que anunciava o teu crescimento. Lembra-te, filha, mas lembra-te mesmo, filha! Antes de me revirares os olhos, antes de me encolheres os ombros ou de me dizeres espeeeeeera, recorda-te: pode não te parecer, mas o amor de mãe é o maior que irás conhecer. 
{se não te recordares, lembra-te só que sou menina para castigos sem final definido}



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Quem não sente, não é filho de boa gente. E quem sente, tem de sentir pouquinho. Ou não.

Quando faltam os argumentos de consolação, é comum o recurso à desgraça do outro. Se partiste uma perna, há quem tenha partido duas. Se não estás feliz no casamento, há quem seja violentado no seu lar. Se estás num emprego que não te motiva, há quem não o tenha. Tudo é potencialmente relativo e, para o bem é para o mal, conseguimos sempre arranjar a referência que nos convém. Mas a verdade, é que as nossas dores, são as nossas dores. São pequenas ou grandes, apenas e só, face à nossa história. Face àquilo que vivenciamos. Mimados, frágeis, sensíveis, dramáticos, o que nos quiserem imputar. Sentimos aquilo que sentimos. E não nos interessa propriamente que tenha caído um poste em cima de um gatinho felpudo, mesmo há minutos, porque não sentimos menos. Mas aceitamos a comparação. Encolhemos os ombros e simulamos uma humana compreensão. 
Cada vez tenho mais dificuldade nesta diplomacia das dores. Em todos os sentidos. Faltam-me as palavras de consolo a quem me procura e saem-me uns "isso é horrível mesmo", "prepara-te porque vais sofrer". Por outro lado, nego o sentimentozinho. Estou um pouquinho triste ou razoavelmente contente. Não. Estou estupidamente feliz independentemente da fome mundial que não consigo travar ou terrivelmente infeliz mesmo com tudo para não o ser. 
Apetece-me dizer-te, assim, que sei que a tua dor é real. Que sei que custa e vai continuar a custar. Que te deves sentir assim, porque tens razões para tal. Mas, e a diferença reside aqui, sei que vai passar. E essa dor vai-se atenuar. E vais sorrir. E vou sorrir contigo! Estupidamente felizes!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Não é bem um bolo. É uma cena...

Na maior parte das esferas da minha vida, sou rigorosa. Chata, mesmo. Faço planos, identifico objetivos, sigo os 12, 20, 5000 passos e incuto a mim própria metas sucessivas, interligadas e simbioticamente conectadas. Uma verdadeira control freak. Pois há outras áreas, que sou- como dizer- descontraída...

-Estou a fazer um bolo porque não tenho pão para os lanches dos miúdos. Vou fazer o de iogurte. Desculpa, estou à procura da receita. 
- Esquece a receita, sei de cor. Três ovos, um iogurte, três copos de farinha, outros três de açúcar e um de óleo. Uma colher de chá de fermento e acrescenta côco se tiveres. 
Desliga-se a chamada.
- Já liguei o forno e tirei tudo. Caiu-me um isqueiro para dentro do iogurte. Vou por outro.
- Ahahah.
- Hum... Esquece, não tenho farinha. 
- Não tens farinha Maisena?
- Tenho. Dá? Ok, vou fazer à mesma.
- Cuidado, pois é mais forte. Vai ao Google e escreve "farinha Maisena equivalência farinha".
- Estou ao telefone contigo... Deixa, vou por... Mais ou menos... Bolas, não tenho açúcar!
- Tens saquetas? E açúcar amarelo?
- Ainda dá uns dois copos. Serve. Ui, só tenho dois ovos!!!
- Fogo, põe mais um iogurte. 
- Xiii, ficou tão líquido. Vou por mais Maisena. Vou-te por em alta voz para conseguir untar a forma.
- Nãoooo, não te ouço bem!
- Já está. Vou por umas gotinhas de baunilha. 
- Tenho de desligar.

Ups...


domingo, 16 de novembro de 2014

Ele está a trabalhar {peanuts...}

Já: 
Corri três quilómetros com os miúdos, com um saco de pinhas às costas;
Fui às compras a pé e com duas crianças cansadas;
Fiz lasanha de atum e espinafres para o jantar, quiche de salsichas, queijo e fiambre para o almoço dos miúdos e uma parecida para mim- versão light-com espargos e atum;
Fiz gelatina e suspiros de chocolate (versão sem açúcar-acreditem em mim);
Revi mochilas e estendi a roupa;
Perguntei sobre os sistemas circulatório e respiratório;
Corrigi somas de horas, minutos e segundos, ao mesmo tempo que pedi para ouvir o verbo to be;
Ajeitei camas, roupas e passei vistoria pelas divisões.

São 16h de Domingo e questiono: 
Posso ir já para a cama?




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Inserir símbolo

É tão fácil comunicar assim! Um coraçãozinho colorido ali, um sorriso com língua de fora acolá, um boneco verde aos pulos... fácil, fácil. Qualquer pergunta tem resposta. Qualquer afirmação tem reação. A minha questão é: será mesmo alguma coisa? Estas não-respostas? São qualquer coisa- um vazio que nos vemos obrigados a decifrar. Ora bem, estou hipoteticamente doente. Partilho o meu estado. Recebo um sorriso. Vamos a isso. Pessoa do sorriso, o que é que queres dizer com isso? Estás feliz por eu estar doente? Achas piada à minha partilha? Ou estás disposta a trazer-me uma canja? Se eu tiver febre alta a meio da noite e se estiver sozinha, posso ligar-te? És pessoa para me levar ao hospital? Vais-me ligar a perguntar o que se passa? O que raio significa o teu sorriso? É um mundo de possibilidades! Na verdade, é quase um Euromilhões acertar na interpretação exata da intenção real de quem me enviou o sorriso. Contra mim falo que uso e abuso dos símbolos e respostas fofinhas. O que querem dizer? Não é a primeira vez que uma dessas pessoas que virtualmente me manda sorrisos e corações, frente a frente, não cospe símbolos sonoros. É quase um desconforto que se gera. Olha, ontem mandei-te três smiles mas na verdade nem te conheço bem. Ainda bem que estás no outro lado da estrada e posso fingir que não te vi. É estranho. É oco. É, mais uma vez, vazio. Acordo, muitas vezes, com imensos corações. Pego no telemóvel e lá estão eles, preenchendo o meu écran. E eu penso "simpático!" E depois penso, "bizarro!" Não sabem porque escrevi aquilo. Nem sabem porque coloquei aquela foto. Não sabem! Como podem enviar-me amor? Sim, é disso que falo. Enviar amor. Não se envia. Não se desenha. Não se faz num segundo. Amor, qualquer tipo de amor, sente-se. Vive-se. Comunica-se por todas as formas, verbais e não verbais- por quem faz sentido. Devia ser proibido enviar assim, gratuitamente. Sem, amor.  

sábado, 8 de novembro de 2014

Maternidade (s)

É tão simples quanto isto: como pais, não queremos que eles sofram. Não queremos que tenham febre, que lhes doa a barriga ou a garganta, não queremos que caiam ou que deitem sangue. Não suportamos que sejam postos de parte, gozados ou injustiçados. Tememos uma dor de amor, para a qual ainda foi inventado analgésico... Ansiamos pela sua eterna proteção. Quando disse à minha mãe que estava grávida pela primeira vez, estranhei o seu ar preocupado. Não vi uma ponta de alegria e essa ideia perseguiu-me. Entristeceu-me, na verdade. Quando a vi imediatamente depois de ser mãe, percebi. Chorava. Temia por mim. Pelo risco inerente, pelas minhas dores, pelas minhas expectativas. Não queria que eu sofresse. Estava a ser mãe e ainda não avó. Mas não somos só mães dos nossos filhos. Somos mães dos nossos pais, somos mães dos nossos irmãos. E hoje senti-me assim: mãe dele. Daquele homem feito, pouco mais novo do que eu. Sorri-lhe sempre ao mesmo tempo que fazia um discurso encenado de segurança e normalidade. Por dentro, estava igual à minha mãe. A chorar baixinho enquanto apelava à minha fé, enquanto suplicava a vigia do meu pai. A minha sobrinha nasceu e nasceu {de novo} também o meu irmão. Parabéns❤️


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mas um, tipo singular?

Às vezes questiono-me se terei sido criada com papas de carcaças embebidas em vinho ou mesmo com ração para animais de grande porte. Quando a minha querida nova nutricionista me questionou se eu queria um iogurte ou dois queijinhos triângulo, eu não consegui dar uma pronta resposta. Não percebi onde queria chegar... Retorqui um "por dia?" Tipo, por oposição a "de três em três horas"... A profissional da alimentação sorriu nervosamente (assustada) e deu-me a sentença- sim, por dia. E reconfirmei "por dia?"- sim. "Um iogurte?"- sim. "Mas se comer um queijinho ao pequeno-almoço, conta como um?"- sim. "É deduzido, então?"- sim. "Portanto, e é um ou outro?"- pois. "Dois está fora de questão?" - hum...

Eu vou sofrer mas, sinceramente, a equipa da EasySlim, que tantas expectativas deposita em mim, não vai ficar melhor...

*Eu vou dando notícias...

domingo, 2 de novembro de 2014

Vida complexa com coisas simples

O problema é querer escrever um tratado. A questão envolve palavras caras, frases complexas e ideias inovadoras. Uma inspiração, uma polémica, qualquer coisa. Não simples, extraordinária. O problema é esse. A vida- pelo menos a minha- não é assim. Hoje, enquanto corria com a Catarina, falava disso. A ausência de conteúdos pela presença de banalidades. O dia- a- dia. O pequeno-almoço aspirado sob os limites do tempo que é acelerado quando saltamos da cama, o nosso saber e competência que se divide pelas inúmeras tarefas, o almoço que foi o jantar, os objetivos a cumprir, o brio de os superar, a corrida ao supermercado, as receitas engendradas a olhar para as prateleiras, os banhos obrigados, os trabalhos de casa quando não terminados, as mochilas desfeitas e feitas, o jantar alinhavado, um discurso mecanizado "Como foi? Porque fizeste isso? Sentiste-te bem? Gostaste do almoço? O que queres vestir amanha?", uns minutos de vida alheia pela televisão, uns beijos rápidos pela noite já avançada. Não é um texto... é uma frase interminável! Uma frase que desafia as regras gramaticais mas que respeita a cadência dos meus tempos, dos nossos tempos. 
Aquele outro, escreveu sobre a felicidade das mulheres quando eram outras. Quando permaneciam em casa e o seu trabalho não remunerado se circunscrevia a cuidar dos seus. O cansaço dos meus dias, a força das minhas rotinas poderia despertar em mim um sentimento de identificação. Fácil, fácil. "Antes é que era!" Boas mães, boas mulheres, boas gestoras daquela que seria a nossa profissão natural. Às vezes, o resultados destes [novos] papéis deixam-nos assim, na dúvida. Mas não é verdade. Existem conteúdos, sim, muitos. As rotinas existem porque permitem a nossa estabilidade. As rotinas existem porque são necessárias à manutenção de uma vida organizada e ao sentimento de segurança. As rotinas dizem-nos que estamos bem e que o amanhã seguirá o plano que construímos diariamente. The big picture- é a soma dos nossos "não-conteúdos" permanentes. É desses que se faz a nossa história. E depois existem os pequenos momentos. Que acrescentam sal e pimenta, que aromatizam a vida e que nos dão folga à gravata. Uma festa a meio da semana, uma boa conversa com uma amiga em vez da corrida programada, um jantar desarrumado e barulhento, uma zanga, umas pazes, um novo desafio. 
Prefiro ser esta mulher. Esta mulher que se cansa, que refila, que desabafa. Mas esta mulher que tem conteúdos. Mesmo que sejam banais. Ou aparentam ser banais...

Uma objetiva. Uma foto programada. O Pau Storch e o Santi. Um momento inesperado, com muito conteúdo. 













sábado, 1 de novembro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014