domingo, 15 de fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Aviso: este é um post chato sobre corrida

Quando decido que é dia de treino, não pode ser dia de mais nada. Ponho os quilometros na cabeça e, enquanto não calço os ténis, não penso em outra coisa. Planeio tudo ao mais ínfimo pormenor. Cálculo a distância ao minuto, conto o tempo que demorarei até ao local e mesmo os descontos para estacionar e chegar depois a casa. No outro dia saí mais cedo do trabalho-coisa rara. Não pensei em ir às compras, nem deitar-me no sofá. Sabia que tinha de começar a correr às 5 para ir buscar os miúdos à hora certa. Sabia que correria mais devagar no início e teria de acelerar no fim. Custa-me sempre o início. Sempre. O primeiro quilometro não é nada. Tudo bem. Entre o segundo e o quarto, parece que não sou capaz. É nesta altura - sempre - que duvido de mim. Curvo mais o corpo e arrasto-me pelo esfalto. Sinto vergonha por me estar a custar. Já passaram uns bons anos desde que me iniciei. Aparecem os demónios da minha cabeça e o esforço é sobretudo mental. Numa luta comigo própria, falo em silêncio. Falta-me o ar e penso- não me doem as pernas, não sinto nada e, no entanto, parece que quero parar. Ana, está tudo bem. És forte. Que orgulho. Pensa! Não tens nenhuma dor. Tu consegues, vou repetindo.  E não páro nunca. Ponho os braços para baixo, abro e fecho as mãos, e continuo. Um pé em frente do outro. Nesta ultima vez estava sozinha. Fui pelo meu jamor, passei a ponte e fiz o novo passeio. Muito próximo do rio com uma luz sem descrição. Estava cansada e, no entanto, feliz. Passei por Algés, olhei para os lados, cumprimentei algumas pessoas. [é das coisas que mais gosto] Segui um rapaz de bicicleta e fui por detrás de um viaduto. O chão era de terra e o corredor de graffitis. Estava completamente só. Não tive medo. Não me lembrei do nome daquele monumento. Fiz quase um quilômetro a pensar nisso. Cheguei à Torre de Belém e depois ao Padrão dos Descobrimentos. A música nos meus ouvidos, os olhos na ponte. Dei a volta e acelerei. Voltar é sempre mais fácil. Os pensamentos são sempre outros. Atropelam-se as dúvidas para o jantar, as hipóteses para a roupa do dia seguinte, a lista de tarefas ainda por cumprir. Será que lhe correu bem o teste de música? A pêra que está no carro- quase que lhe sinto o sumo. Tenho a cara salgada. Vejo agora o sol de frente. Laranja. Passo novamente a ponte e chego. Tiro os fones. Passa pouco das 6 horas. As minhas pernas tremem. O resto do meu corpo emana alegria. Mando a mesma mensagem de sempre "Acabei. Quase a chegar". Os meus filhos perguntam-me "quantos quilômetros?" Os olhos deles são a minha medalha. 




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Interrompendo o silêncio, para um pequeno desabafo

Ai, eu não leio o correio da manhã, não vejo a casa dos segredos e muito menos vou ler ou ver as não sei quantas sombras do outro. Ai c'orror, que sou um ser iluminado e superior. Ai, que enjoo, digo eu. Estejam calados, masé! Digam a verdade, que não faz mal! Assumam que desaceleram quando passam num acidente. Que espreitam as letras garrafais daquela revista manhosa. Digam que apreciam saber a história daquele vizinho piloto que aparece de vez enquando. Cruzes, assumam que até gostam de umas farturas na feirinha do verão! Que a sardinha no pão é outra coisa. Caramba, não vos coloca uma etiqueta em cima. Não têm automaticamente de envergar um chinelo com fato de treino e cuspir palitos da boca. Não somos seres superiores e inferiores! Assim, preto no branco. E o que é ser superior ou inferior? Ai, vês a telenovela das 21h religiosamente e não podes assumir uma outra novela como um romance de livro de bolso? Uuuuu, é completamente diferente! Credo, aqueles miúdos burros e parvos do reality show!! Vejo tanto adulto de fato e gravata bem pior... Custa-me a hipocrisia. Não tenho a mínima vergonha. Sou menina para me sentar na pior das tascas, para comer caracóis mal lavados e ouvir umas anedotas bem contadas. E com as asneiras ainda fica melhor. E sou menina para me emocionar com uma peça de teatro, depois de uma qualquer refeição gourmet, num daqueles sítios que se partilha no Instagram. Cada coisa no seu lugar, no seu contexto. Como em tudo na vida. E calou. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Já fui ao Brasil Praia e Bissau Angola Moçambique Goa e Macau Ai, fui até Timor Já fui um conquistador...

Pedi para ela a ir buscar à escola. Eu estava a meio de uma reunião e a pequena não se sentia bem. Seguiu as minhas indicações e quando lá chegou, não se lembrava do nome da minha filha. Simplesmente não se lembrava. Os segundos passavam, os minutos e o olhar incrédulo de quem lhe abrira a porta, mais nervosa a deixava. Estava ali mas não estava. Estava dentro da sua cabeça mas não saía. Ficou nervosa, preocupada. O nome apareceu, como desapareceu- sem explicação. Rimo-nos muito. Não se esquece o nome de quem nos é próximo. Supostamente. Rimos, porque escolhemos rir. Como quem vê o copo cheio. Já passaram uns poucos dias e continuo a pensar nessa "branca". Lembro-me da Alice que há pouco li mas afasto essa ficção. Nego qualquer semelhança com algo tão real. O copo transborda a água e na verdade recordo-me de tudo o que me esqueço, fundamentando. A memória é lixada para não dizer uma coisa feia. Espanto-me com a arbitrariedade- ou não- das escolhas cerebrais/ emocionais que são feitas. Lembro-me de tanta coisa e outras é como se não tivessem existido. Recordo-me do meu primeiro beijo, por exemplo. Lembro-me de sermos da mesma altura e de olhar para os lábios dele. Quase uma câmara lenta que gravei e localizo no cimo da escadas da escola, mesmo ao lado do Pavilhão B. Não me lembro do apelido dele. Não consigo mesmo recordar-me. Lembro-me da pápa de pêra abacate, limão e açúcar, da ceralac nos pratos em flor, dos passos do meu pai antes de colocar a chave na porta mas não me lembro de um único brinquedo meu. Vejo o skate de um irmão, a bicicleta vermelha, o Bart Simpson na mesa do caçula e... nada meu. [pronto, recordei-me do careca] Vejo-me a entrar na cozinha em passo acelerado, por um pé no azulejo e... branca. Não sei o que fui lá fazer. Tento adivinhar abrindo os armários, olhando para a roupa estendida e acabo por dar utilidade à minha presença ali- mas não sei bem se era aquela a ideia inicial. Lembro-me da Mónica, a minha melhor amiga na escola primária e penso muito na Carmo que não brincava com ninguém. Lembro-me agora dela porque só agora realizo a sua preocupante tristeza. Desejo que tenha passado. Não me lembro de um único professor da escola preparatória. Fecho os olhos e vejo as salas e os corredores. Estranho, não é? Não me lembro quando nasceu o primeiro dente do meu filho. Seis meses, 10 meses- não faço a mínima ideia. Lembro-me dos meus irmãos me chatearem. "Ana, banana, macaca, cigana". O cafuné, à noite, à minha mãe. Os penteados com a escova preta. Não me lembro das matriculas dos meus três primeiros carros. Memorizei pelo menos dez da frota do meu trabalho. Sei quem anda com qual. Carrego o número de contribuinte como o nome de um filho. De trás para a frente. Sei passwords sem fim. Cartões multibanco, emails, cartões cidadão, acesso a escolas e afins. De todo um agregado familiar. Os números aparecem-me naturalmente. Demoro minutos a identificar uma cara. Não sei se é da piscina, dos escuteiros, da catequese, das corridas, do trabalho, da escola, do trabalho dele, do futebol, do diabo a quatro. Sei a letra completa da música "Conquistador". Recordo o movimento dos meus braços quando a minha mãe enrolava o novelo para o crochet.
Podia estar aqui horas e horas. A nossa mente memoriza sob critérios que desconheço. Coisas boas ficam e algumas más são inesquecíveis. Pormenores esfumaçam-se ou transformam-se em grandes marcos. Não sei explicar. Nem sempre me faz sentido. Nem sei se tem, de facto, algum sentido. Vamos guardando coisas e esquecendo outras. Acho que o que tem importância-boa ou má-acaba por ficar. 
Inês- Fonte Caspolina- não sei a idade...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

27 de Janeiro de 2015

Para quando nos esquecermos [porque esquecemo-nos]: 

detestas cebola. Todos os dias perguntas-me se a sopa tem, se o arroz tem, se alguma coisa tem. E a cenoura segue o mesmo caminho. Está em tudo e não está em nada. Bebes chá como eu e já pedes que seja de pêssego e não de caramelo como o dela. Mergulhas a bolacha Maria e fechas os olhos. Devagar. Róis as unhas. Não tens vergonha de abraçar os teus peluches (mas já vês futebol como um homem de barba rija). Gostas de estar sozinho na casa de banho e a pasta de dentes ainda te pica. Segues o teu pai como um patinho e às vezes tenho ciúmes. Tu sabes. Já ficas menos vezes doente mas ainda hoje te libertas da febre e tosse de há poucos dias. Pedes-me num choro encenado para não ir à escola. É fácil falar-te do hospital e das vezes que as injeções de penicilina te magoam. És rápido a vestir-te. Falas à bebé mas já não dizes "não xei". Tenho pena. Dormes com as mãos debaixo da almofada sempre direitinho. Tranquilo. Ainda és o meu bebé. 
Tu... Implicas com as costuras das meias, collants e não vestes quaisquer cuecas. És dificil de convencer e já sabes que o vermelho não combina com cor-de-rosa. Pedes-me blusas que deixem o ombro à mostra mas ainda empurras o carrinho com um bebé fingido. Contas-me segredos mas já sei que não são todos. Escreves como eu. E dobras os papelinhos. O teu choro já é diferente. Também não gostas de cebola mas já não te escondo onde a ponho. Gostas de chamuças e alimentos picantes. Adoras desafiar. Gostas de correr comigo e eu gosto de te ter comigo. Queres sempre dormir com ele. Queixas-te muito. Que o defendemos, que o protegemos, que, que... E queres sempre dormir com ele. Riem-se, conversam e eu zango-me mas adoro. Olho para ti e vejo-me muito. Ris-te de forma parecida e és tímida como eu. Mas és tramada. Queres crescer e eu deixo-te mas não demais. Lembro-te que não largas o teu ursinho branco e que ainda te enrolas toda com mimo. Tens pequenas sardas e cabelo dourado. És muito bonita. 
27 de janeiro de 2105. Tu, filho, dormes em cima do meu braço enquanto escrevo. Estás agarrado a um peluche e sei que não te vou conseguir pegar. Vais ficar mais um bocadinho. Tu, filha, já percebeste que escrevo sobre ti. Não te deixei ler mas sei que o vais fazer. E vais dizer que eu devia ter escrito outra curiosidade qualquer. Digo que vou retificar mas não altero. 

Hoje estão assim, quase iguais. Apeteceu-me registar. 

                 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Complexo de Deus

Por tanta gente que não acredita em algo superior, há ainda mais quem pratica um exercício de auto-divindade que me tira do sério. Têm a crítica na ponta da língua e a voz sai com conotação de sabedoria extrema. Razão só há uma e tem o seu nome por baixo. Sabem tudo e têm uma opinião sobre este mundo e o outro. {Aqueles não são felizes, o outro anda com a outra, gastam o que têm e não têm, não sabem o que fazem!} Vão buscar as vestes, alteram a voz, abeiram-se e avançam com os sagrados ensinamentos. {Faz assim, faz assado, eu não sei mas acho...} Só existe um caminho. E há para quem seja mais fácil ser conduzido. E encarreirar como é suposto. E baixar a cabeça e aceitar a benção. E fustigar-se com imaginárias vergastadas. E... há para quem seja impossível ser assim. Porque não vislumbra a divindade. Porque vê outro ser, igual a si, e talvez com mais necessidade de colo e atenção. Há quem não aceita o sagrado vindo de um ser terreno, tão imperfeito quanto si. A verdade é muito subjetiva. É- digo-o, agora eu, com igual sobranceria. Tão simples quanto o que já todos percebemos. Não há casamentos constantemente felizes, não existem amizades sem erros e desculpas, não há atitudes sempre certas e pessoas integralmente boas. Não há branco e preto- apenas. Há, muitas vezes, o cinzento e, felizmente, uma enorme paleta de cores. 
Por isso, pessoas iluminadas:
Deixem lá de examinar exaustivamente o vosso próximo, apesar de tentador. Não assumam a vossa capa de superioridade, quando ela pode cair amanhã. E já agora, parem lá de criticar os pais e mães que levam as crianças a ver a Violleta! Não, não se estão a estragar as meninas. Não, não vão ser, necessariamente, seres fúteis e ignorantes. É apenas um concerto! Não estamos a levar as miúdas a snifar cocaína.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O bom do meu frio


Ou eu ponho mais maminhas, ou pões tu. Por um de nós o Ronaldinho tem de se encantar

Algures durante o fim-de-semana, comemos frango no churrasco. Sobraram dois pedacitos daqueles que não conseguimos identificar numa galinha com penas. Desfiei o dito e reservei-lhe um final ditado por couscous, alho francês e um toque de mel. Serviu o meu jantar de ontem, o meu almoço e jantar de hoje e o almoço de amanhã. Os miúdos deliciaram-se com um hambúrguer requentado, com uma fatia de queijo por cima, pintalgado com ketchup. Era de ontem mas ficaram felizes. Também de domingo ao meu marido calhou o prato de massa para um. Salsichas, chouriço, esparguete- todo um festim.
 O almoço da cantina amanhã reserva peixe. Uma mão de arroz a cozer e duas empadas no forno salvam a menina de uma promessa sem sentido. O miúdo ainda tem fome e junto mais uma empada. A gata salta para cadeira e rouba uma lasca de frango do couscous. O telefone toca. "Pois, não comprei pão. Dá-me a tua receita de bola de carne." Só tenho fiambre, azeitonas e farinheira. Assim será. São 21h. Cheira a Trás-os-Montes na minha casa e eu finalmente sento-me. Lembro-me dele... Querido Cristiano Ronaldo! Podes ligar. Estou disponível para amor sincero. Ou só amor. Ou só interesse, vá. E quem diz eu, diz o meu marido... 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Deixem-se de coisas. Mandar à merda não é a mesma coisa

O menino é alto, bonito e simpático. Esta será a descrição mais comum no terceiro nível do ensino básico quando se pede aos pequeninos para descrever alguém.Tais adjetivos são, na minha opinião, insuficientes para um qualquer retrato. Sinceramente, eu gostaria de introduzir todo um novo conceito nos relatos descritivos associados à pessoa humana [por exclusão da pessoa animal]. Da minha singela experiência existe uma lacuna por preencher. Não há relato fiel sem uma referência à capacidade de mandar foder. Leram bem. Na verdade, ou uma pessoa aguenta-se sem um "vai-te foder" ou não simplesmente não se aguenta. Imaginem dois conjuntos com uma minúscula interseção. De um lado, estão os explosivos. Ao mínimo estímulo, lá sai a frase e calou! No outro círculo estão as pessoas como eu. Mordem-se, reviram os olhos, desejam que lhes caiam os dentes da frente mas... Silêncio... A frase não sai. Acho mesmo que devia fazer parte do nosso currículo! "Olá, eu sou o Alberto, formado em engenharia informática, experiência de três anos numa multinacional e... Já não mando ninguém foder há 35 dias." Ora o Alberto está ali no meio, na confluência dos dois grupos. Não sei o que é de valorizar. Não sei mesmo. Se os que dizem, se os que engolem em seco ou se os que estão no limbo. Hoje, estive quase quase quase a chamar-me Alberto. O Alberto num dia mau, claro!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Irmãos

Quando o meu irmão chegava a casa descalçava os sapatos colocando os pés na minha cama. Não os pausava com cuidar. Era uma batida forte. Primeiro um e depois o outro. "Estás a dormir?" Era assim. Não havia privacidade e muito menos paz. Havia sempre alguém que acusava alguém. Um objeto retirado sem autorização, uma camisola alheia vestida, umas bolachas usurpadas- uma guerra montada. Às tantas optou-se por etiquetas. Nas meias, nas toalhas, no queijo. Nunca era pacífico. Mas riamos muito. As anedotas no escuro, as inconfidências reveladas, as brincadeiras parvas, o gozo pelo gozo. A proteção! Não mudou muito, na verdade. Irmãos são irmãos. Lembrei-me agora dos meus [quatro] a olhar para eles. Estes não passam muitos minutos em silêncio e muito menos separados. Dão-me cabo da cabeça, da tranquilidade e dos ouvidos. Dão-me a maior alegria do mundo. São irmãos. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Inspirações

Lembro-me como se fosse hoje. Saí do trabalho já no escuro. Estava frio mas não o sentia. Estacionei na praia da torre. Tínhamos combinado lá. Eu vestida para correr e ele com roupa sobre roupa. Custava-lhe acreditar que era só assim. Lembro-me como se fosse hoje. Subia as escadas com dificuldade. Dois degraus e parava. Eu esperava como já estava habituada. Era a ciática. Eram a hérnias. Eram os pulmões escurecidos. Mais dois e mais dois e mais dois. E chegámos lá a cima. Expliquei-lhe o percurso. Onde podia parar o carro, até onde podia fazer, os principais marcos. Delineámos ali uma estratégia. Vai com cuidado, não exageres- disse-me. Voltou pelas escadas, sob o seu casaco, e eu segui no escuro. Estávamos no inverno. Em Julho foi internado. Foi internado com o corpo moreno, já habituado aos sete kilometros diários sob o piso vermelho e cinzento. Em Agosto morreu. Ainda estava moreno. Bonito. Lembrei-me dele [como sempre, por tudo e por nada] quando hoje vi o Albisio. Não conheço o Albisio. Seguimo-nos virtualmente e talvez nos tenhamos cruzado numa ou outra prova. Estatura baixa, corpo franzino, cabelo grisalhos. Adivinho-lhe uns 55 ou 60 anos, talvez mais, não faço ideia. Sei que é um apaixonado. Apenas sei. Corre a fundo e imagino uma vida com a mesma intensidade. Adivinho. 
Quem corre [mesmo de forma amadora como eu] tem algumas pancadas. A minha pancada é ver o Albisio. Fazemos muitas vezes os mesmos percursos. A última vez que o vi, gritei o seu nome. O vento, a concentração, a distância ditou o silêncio. Hoje vi-o outra vez. Faltou-me o ar, faltaram-me as pernas. Mas gostei de o ver. Lembrei-me dele e senti-me acompanhada. 
Nem sempre é fácil correr sozinha. As coisas misturam-se na cabeça, com a música, o som da passada, o movimento da estrada. Não quero com isto dizer nada. Só que quando corro sozinha, estou sempre acompanhada.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Quando o absurdo não é o mais estranho

Véspera de Natal. Saio de casa da minha mãe julgando-a mesmo atrás de mim. Ela volta atrás para ir buscar algo esquecido e vou descendo. Entro no carro e espero. Espero mais um bocado, até que estranho. Volto ao prédio e encontro-a mais a D. Helena- a vizinha do terceiro andar. Com 92 anos está caída entre o primeiro andar e o piso térreo. Corro para avisar a filha que espera no carro mal estacionado, com o motor a trabalhar. Volto em passo acelerado para fazer não sei bem o quê. Tenho medo de lhe tocar e magoar ainda mais mas sigo a vontade da filha. Pego-a ao colo como a um meu bebé. Uma pena. Sinto os seus ossos e o corpo contraído. Pouso-a no chão e apoio-a sobre mim e sobre a minha mãe. Ajudamo-la a colocar-se de pé e a descer o lance que faltava. Tentamos que caminhe sozinha porque assim nos é pedido. Não se aguenta. O desiquilibrio do corpo assemelha-se à desorientação do pensamento. Ainda assim, vai-me dizendo que está muito feliz por me rever, mesmo sob aquelas circunstâncias. A filha nada diz. Conduz as nossas ações e conduz mais tarde o carro ainda quente. Ficamos assim- eu e a minha mãe- naquele silêncio. Na censura muda perante as ações invisíveis e pela apatia demonstrada. Ficamos assim- eu e a minha mãe- num similar desconcerto, com preocupação pelas dores vindouras, pelos ferimentos possíveis, pela frieza que não vem do rigoroso inverno. Ficamos assim e continuamos. 
Quando hoje entrei em casa da minha mãe, quase não lhe disse olá. Perguntei pela D. Helena que me relatou vezes sem fim, as vezes que me pegou ao colo {nunca pensei devolver-lhe o gesto}. Encolheu-me os ombros. Não a viu, nem sempre a vê. Nada sabe. Ficámos assim- eu e a minha mãe- até que tocou a campainha. Era a outra vizinha, a Saudade. Vinha com uma incumbência, sob um sorriso nervoso. A D. Helena havia transmitido a sua indignação. Tinha caído, era certo, mas, nas suas palavras, carregava sacos com prendas de Natal. Sacos que desapareceram. Sacos que foram roubados à sua existência. Sacos que fazem, agora, a felicidade de quem por ela havia passado, ainda caída no chão. E ficámos assim- eu e a minha mãe- com sacos imaginários nas mãos, sorrindo pelo "mal" da D. Helena. O estranho é tudo o resto. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

Gostei muito, ó Pés!


http://pesnosofa.blogspot.pt/2014/12/best-worst-of-2014-posts.html?m=1

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

2015 "eu vou-lhe usar"

Seis da manhã. Não precisava mas, acordei. Carregava os meus filhos pelas escadas do prédio, segundos antes de irromperem, com maldade, pela minha porta. Acordei. Não voltarei a adormecer, eu sei, principalmente porque os pensamentos surgiram tão rápidos como os ladrões.  Estava a olhar para trás, a distinguir entre um ano e outro. Há coisas que não me recordo aonde pertencem. Outras há que não tenho forma de esquecer, pertencem a este balanço. 
Este ano foi par, com números redondos como gosto. A maior descoberta foi o orgulho. Um orgulho bom, motivador. Descobri que é o que me desafia e o que me dá prazer. Percebi melhor. Percebo-me melhor.  Meti-me na aventura de um livro e aconteceu mesmo. Orgulho. Corri de Algés ao Cais do Sodré e voltei. Contei os 15 km aos metros. Orgulho. Descobri outra coisa. Achava que o "mais" era muito distante ou difícil. Descobri que o "ser mais" é tão simples como "o querer mais". Lutei por uma oportunidade na escrita e, simplesmente, consegui. Não a aproveitei, por decisão. Descobri que não posso fazer tudo, sob pena de deixar algo para trás. Fechei um ciclo profissional e fiquei tranquila. Outro convite e mais orgulho. Mantive-me no caminho. Vi nascer a Margarida. Sem palavras. Chorei com a Susana, com os pés largados na marina. Chorámos as duas e foi bom. Ri com muitas pessoas. Descobri, também, que sou muito mais forte. Sorri perante a ameaça, disse adeus a quem se afastou e mantive a porta aberta a quem escolhi. Tranquila. Olhei-me ao espelho e não desviei. Cresci em vaidade, também. Olhei para o contorno da minha anca, passei a mão por mim. Gostei. Olhei para dentro. Continuo eu. Boa rapariga que gosta dos seus. E também dos outros. Gostar é a minha maior virtude, acho eu. Ajudei quem consegui ajudar, ajudei quem me deixou e ajudei-me. Continuo neste equilibrismo a contar com os braços de alguém que, por sua vez, também se suporta em mim mas, entendo que a vida é assim- interligada, dependente e não isolada. Continuo com muitas saudades do meu pai. A percorrer todos os momentos, num loop que criei e a imaginar tudo o que é novo como se estivesse aqui. Cresceu o medo de perder mais alguém e descobri que isso é possível, como se nunca me tivesse ocorrido. Entendo-o como uma benção. Escrevi menos porque me apeteceu menos partilhar. Vivi igual. Umas vezes mais outras vezes menos. Escolhi bem onde queria gastar o meu tempo. Preocupei-me com a minha filha. Rezei. Mantive-me ali como se não me assustasse mas também sou pequena, ainda. Tudo bem. O meu filho pediu para ir a Paris- prenda de Natal. Vamos ficar por aqui. Descobri que estamos no sítio certo. 2014 foi um bom ano.








segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Com tudo

O inverno que eu gosto. Na rua. Com frio. Com sol. Com tudo. 










sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Uma profunda reflexão. Uma brilhante conclusão.

Ontem, uma colega  dizia-me que, quando o filho tinha cinco anos, não conseguia dar-lhe um determinado comprimido, por ser demasiado grande. Agora, com dez, já era possível porque "felizmente, são mais pequeninos". Achei piada. Como calcularão, o medicamento é o mesmo. Apenas mudou a perceção da mãe tal como muda a nossa, diariamente, face a tantas coisas. 
Esta semana fui a Lisboa. Resolvi, porque resolvi, que viria para casa de elétrico. Daqueles antigos, com chão de madeira e janelas empenadas. Daqueles que param muitas vezes e andam devagar e, que na minha mente, são perfeitos para um final de dia na cidade. Imaginei-me sentada naquele estofo castanho, iluminada pela luz do entardecer, a tirar poéticas fotos para depois partilhar exaustivamente, qual amante da minha Lisboa. 
Afinal o comprimido não era grande, nem pequeno. Era quase uma injeção de penicilina. Galguei meia cidade até chegar à estação do Cais do Sodré, caminhei pela rua quase deserta e acelerei o passo perante os impropérios de um homem que me seguia e que encarnava o perfil tipo de um cinematográfico serial killer. Cheguei à paragem. Lembrei-me que era o 15 e muni-me daquele cartão verde que uso quando me armo em jovem e vou a um qualquer concerto. Saquei de umas poucas moedas e acenei ao sr. condutor de forma esquisita. Tenho de fazer aqui um parênteses. {Na verdade, eu não sabia como raio é que havia de avisar que pretendia beneficiar daquele serviço. No meu tempo, quando andava de transportes públicos, acenava assim de lado, com um ou dois dedos, como estava instituído. Ora, eu não sabia se os tempos agora ditavam outras regras. Quiçá um gesto mais moderno, um like gestual, as mãos em forma de coração, uma selfie com o bilhete... não sei. A verdade é que não queria dar parte fraca. Lá vinha o eléctrico e eu simulei um gesto. Foi qualquer coisa como um braço levantado e uma mão descontrolada, tipo espasmo. Certo é que parou.} Fim de parênteses. Bom, continuando, apresentei-me ao Sr. e mostrei-lhe, qual incapaz, o cartão verde e as moedas. Olhá-mo-nos mutuamente, como um turista e um indígena da floresta Amazónica. Disse que queria pagar um bilhete e perguntei como se fazia. A reação foi semelhante à entrega do IRS, numa repartição das finanças, exatamente às 17h28. Bufou e murmurou uma qualquer explicação. Sacou-me três moedas de euro e esperei que me devolvesse duas. Nada. Senti que poderia ter comprado, com aquele dinheiro, um bife de vaca e ter feito o percurso desejado com os meus ténis maravilha. Enfim, mas esperava-me o paraíso. Ou não. Virei-me e parei nas costas do Sr. Não andei mais. Tive o tempo todo a fazer força, como se fosse ter um terceiro filho, para evitar que o profissional sentisse as minhas maminhas no seu pescoço e casaco de cabedal. Com a mala na mão, o casaco no braço, o cachecol a limitar a minha margem de manobra e o telemóvel entre os dedos, fiquei automaticamente apta para ingressar no Circle du Solei. Tirei uma foto e a injeção de penicilina passou a comprimido em cápsula. Dei uns passinhos e fiquei colada a turista espanhola com perna engessada (espetada, portanto). A bendita queria, porque queria, saber qual a paragem mais próxima da Torre de Belém. Ora, eu sorri muitas vezes e fingi ser proveniente da África do Sul. O Sr. mais próximo, que também estava colado a outra parte do meu corpo, resmungava "três paragens". A espanhola não percebia e ele gritava "três". Eu desviava-me para que a espanhola engessada conseguisse visualizar os três dedos do senhor que mais parecia estarem prestes a ser enfiados nos olhos da dita. Enquanto me desviava ouvia a conversa de uns miúdos que tinham a altura dos meus filhos. Ao invés de falarem da Violetta ou do Inspector Max, como eu esperava, dissertavam sobre a arte de fazer o amor, com linguagem do falecido canal RTL, após a meia-noite. E faziam e aconteciam e a espanhola de perna para cima e o homem com os dedos em riste, e eu em pé agarrada a um tubo de aço inoxidável. Uma cenaça. A espanhola levantou-se. E com ela seguiram-se mais duas e mais as muletas e o homem gritou que era ali. O condutor exigia que se despachassem. Os miúdos babavam para cima de uma moçoila, eu reparava no sinal que alertava para os carteiristas e o sol já nem aparecia. E voltou a injeção. Isto tudo para dizer que, isto das perceções pode ser uma merda.



domingo, 30 de novembro de 2014

O melhor de todos os meus dias

As dores fazem destas coisas. Obrigam-nos a focar, a olhar em frente. Forçam-nos a um esquecimento deliberado e a um presente que seleccionamos. As dores fizeram-me ser assim. As passadas, as antigas e as ainda abertas. Tento não me lembrar delas mas, sempre que as malditas são mais fortes do que a minha determinação, faço o pino, um mortal encarpado e uma roda seguida de esparregata. O sentido figurado do exercício não é mais do que parar um pouco e lembrar-me de tudo o que tenho de bom. Faço-o diariamente, faço-o muitas vezes, no meu silêncio. E agradeço. Porque tenho mesmo de agradecer. Hoje faço-o de modo a que me ouçam.
Obrigada pelo vosso carinho. Pela vossa amizade. Por encolherem os ombros pelas minhas parvoíces ao mesmo tempo que esperam por mais. Por se rirem comigo. Por saberem estar em silêncio quando não consigo ouvir. Por ralharem comigo e por me elogiarem quando eu me recuso a ver. Por estarem comigo. Porque sim. 
Hoje é o dia do meu aniversário. Na verdade, não interessa nada. Porque recebo todos os outros dias. Obrigada!









{Obrigada, meu irmão, por fazeres anos comigo. E por fazeres sempre na tua casa... 💗}

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

4x___= 1000

Lembro-me bem destas contas. Lembro-me de olhar para cima, com o lápis roído na boca, a imaginar o número 100... depois o 200... e no 300 já era demais. Lembro-me bem de escrever de lado, bem pequenino, num rascunho que ainda não conhecia. Ía tentando até chegar ao desejado resultado. Lembro-me bem deste método- ainda primário- de ir por tentativas. Mas depois vamos crescendo e numa idade de prata, achamos, presunçosamente, que as soluções aparecem instantaneamente na cabeça. 4x250=1000, é claro. É ridiculamente claro. Eis, senão, quando a equação não dá mil. 250+250+250+250 é igual a outra coisa qualquer que foge àquilo que aprendemos, àquilo que nos disseram, àquilo em que acreditávamos. E partimos do zero. E voltamos ao rascunho. E pedimos ajuda, se necessário. 
Ir por tentativas não é coisa de crianças. Ir por tentativas é coisa de adultos. De gente crescida que julga que sabe tudo. Eu não sei. Vou tentando.