sábado, 21 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 21 de março

Sempre gostei da expressão "mixed fellings". Houvesse uma entrada no dicionário para esta junção de palavras, a minha foto estaria lá de certeza. Sou uma mente que encerra contradições e, também neste desafio, o padrão transparece. Se por um lado verbalizo que o que pretendo é participar e fazer o que conseguir, a verdade é que não quero só tentar. Se desvalorizo agora o não terminar, um segundo depois assumo que nem quero imaginar. Descubro-me competitiva, terrível e lembro-me, de repente, da história contada. Pintada no tecto do palácio onde trabalho está uma mulher corredora. Era tão hábil, tão veloz que se arriscava a apostar todos os desafios. Quem a vencesse ganhava o direito de com ela casar. Quem saísse derrotado, perdia o orgulho e perdia a cabeça. A história é sobre humildade ou falta dela. A presunção tramou-a. A dada altura, um atleta enganou-a utilizando a sua principal fraqueza- a vaidade. Pintou várias maçãs com cor de ouro e espalhou-as pelo caminho. Iniciada a prova, a capaz atleta deixava-se travar para apanhar aqueles tesouros. Ele ganhou a prova e ganhou-a. A história não conta mas imagino-a, depois, apaixonada. Talvez menos veloz... 
Ando com esta história na cabeça, à voltas, a pensar que tenho de me alinhar melhor. Encontrar um equilíbrio entre esta minha vontade de ser bem sucedida e a humildade de compreender que pode não acontecer. 
Preparei-me. Esforcei-me muito. Tenho recebido muito carinho e muito apoio. Tenho tudo. Amanhã vou correr uns poucos quilômetros com as pernas e todos os outros que conseguir, com a cabeça e com o coração. Vou até ao meu limite e aconteça o que acontecer, vai ser uma vitória. 
Se estou preparada? Estou. 


sexta-feira, 20 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 20 de março

Muitas vezes perguntam-me o que procuro na corrida. Muitas vezes tiram ilações. Para emagrecer, para encarneirar numa moda, para, para, para... já disse e escrevi, não procuro nada em especial e procuro tudo. Acho que gosto de viver com emoção, viver mesmo. Isto aplica-se na corrida e na minha vida em geral. A escrita vem nesta linha. Nem sempre me apetece, nem sempre tenho inspiração, nem sempre o faço mas... é uma semente que não desaparece. Uma paixão instalada. Escrever na minha casa, em Oeiras, é semelhante a cortar uma meta. É uma adrenalina, um orgulho.


|E sim, estou em pânico. Falta pouco tempo. Estou a pensar ficar deitada a partir da noite de hoje até à madrugada de Domingo, a engolir pratos de massa, com lentilhas e beterraba. Acumularei tanta energia que se me encostarem uma lâmpada, será todo um outro eclipse...|

quarta-feira, 18 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 18 de março

Devagar, com tranquilidade, a dizer para dentro, "sou capaz".

[sim, eu tenho uma maneira peculiar de alongar...]

segunda-feira, 16 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 16 de março

"Breathe in... breathe out
Não foi o meu melhor tempo e de longe a maior distância percorrida mas, hoje, especialmente hoje, considero que foi um grande feito. Há dias difíceis. Sei que quando conseguir controlar a respiração, vou conseguir melhorar muitas coisas na minha vida."

Escrevi este minúsculo post no dia 29 de agosto de 2011. Lembro-me que corri numa tarde demasiado quente, no meu Jamor. Sei porque o dia havia sido difícil e sei que encontrei na corrida o meio eficaz para respirar. Volvidos quase quatro anos, é mais claro para mim o lugar da corrida na minha vida. Dizia hoje à S. que estava receosa com a prova de domingo. Com medo de ceder à tentação de correr fora do meu ritmo, de me aleijar, de não conseguir e não terminar. Apercebi-me que estava com medo de desiludir os outros, de fracassar neste desafio. Já me tinha esquecido desse lugar. Não tenho nada a provar a ninguém. A corrida é uma coisa minha. Um diálogo comigo própria. Vou no meu tempo, até onde conseguir. Sem medos. 


|Mini-reportagem de um desafio| 13 de março

Podia começar este post com uma qualquer citação inspiradora ou com uma expressão entusiasta de pura alegria. Poder podia mas, seria mentira. Hoje apetecia-me tanto correr como engolir vidros partidos em pedaços de 5 centímetros. Por nada em especial, simplesmente, não me apetecia. Não tive opção. Vim sem carro propositadamente, e... na verdade, sei que me custaria mais se não fosse...
Enquanto corria pensava numa frase que li há dias que dizia qualquer coisa como "às vezes a corrida toma conta de nós. Noutras, tomamos nós conta da corrida".  Apesar da minha fraca motivação de hoje, senti este poder do meu lado. Cumpri. Superei. Ainda bem que fui.

[Gostava de agradecer ao ciclista que me fez companhia por alguns metros e que me deu força. Ao colega que partilhou comigo alguns dos constrangimentos que bem conheço. Aos meus filhos e ao meu marido que me deixaram sozinha em casa permitindo-me estar no maravilhoso coma pós-esforço desportivo. Por favor, voltem só amanhã]



domingo, 15 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 16 de março

O meu fim-de-semana foi bom. A temperatura certa, a família, os amigos, a paisagem... Mas, se tiver de eleger o momento... falo-vos daquele exacto segundo em que as minúsculas partículas do asfalto se misturaram numa só e deram origem a micro raios de luz. Olhei para o relógio e vi um 5... um 5 que nunca vejo. 

O meu fim-de-semana foi muito bom!






sábado, 14 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 14 de março

"Ana, não sou fã de corrida. Para mim é isso dos vidros em cada metro, mas leio os teus relatos e vejo mais que isso. Vejo tenacidade. Não sei o que te (vos) move, mas sei que é duro. Que trocas o conforto por um desconforto brutal. Espero que encontres o que procuras. Bjs"

A querida N., sempre por perto a apoiar-me, escreveu este comentário no último post que escrevi. Pensei responder naquele espaço mas achei que precisava mais do que aquele pequeno rectângulo. Na verdade, N., não procuro nada. A sério que não. Descobri {vou descobrindo} que a vida passa muito rápido. Mais importante, percebi que viver sem objetivos, é assim como se boiássemos no mar. Sabe bem, é agradável, mas é só aquilo. Vamos, guiados pela maré, sem grande controlo. Não quero só boiar. Quero mergulhar, enrolar-me nas ondas, engolir água e emergir. Quero tudo. 
Correr é um objetivo mas é, acima de tudo, um statement... 

[agora vou enviar um email à organização da #meiamaratonadelisboa. Preciso de saber se aquilo dá para se fazer por partes. Tipo 10k de manhã e outros 10k à tarde. Ou em modo estafeta. Preciso também de saber a que horas passa o carro vassoura]

terça-feira, 10 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 10 de março

"O corpo humano é capaz de feitos físicos impressionantes. Se conseguirmos libertar-nos daquelas que entendemos ser as nossas limitações e acender o nosso fogo interior, então as possibilidades são infinitas."

[O Homem da Ultra-Maratona, Confissões de um Corredor Nocturno]




domingo, 8 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 8 de março

Sinto-me sempre feliz quando acabo de correr. Custa-me, sinto-me cansada, tenho dores mas, a sensação de conseguir é aquilo que me move. Continuo a por um pé ao frente ao outro e nego-me a desistências. Hoje talvez tenho sido a primeira vez que não me senti bem. Acabei é certo mas, a dificuldade matou o meu orgulho. Confesso que ía nervosa. Ía para um treino organizado, com gente que corre muito e bem, a horas que não são as minhas, num trajeto que não conhecia. Corri mais rápido do que é hábito mas não foi isso que me incomodou. Correr com o sol a pique, com vinte e tal graus, não é a mesma coisa do que a confortável noite ou o habitual vento fresco. Perto dos 5k, quando iniciámos uma subida sem fim, simplesmente quebrei. O sol na cabeça, o calor no corpo, a sede constante, tiraram-me as forças. Não me doía nada. Tive a nítida sensação que o arrefecimento repentino do meu corpo era o anúncio de um desmaio que estava próximo. Pensei voltar para trás e esquecer o meu objetivo. Falei muito comigo própria. Alternava entre um "és leve, tu consegues" e um desanimado "és gorda, não devias andar por aqui". Juro. Pensei muito nisto e disse alguns foda-se mentais. Gorda ou não, estava ali. Ao sol, sem forças, com medo de perder o controle e a consciência. Gorda ou não, era muito corajosa e persistente e empenhada. E continuei a por um pé à frente do outro. Terminei. Corri 17k nas piores das condições. A ziguezaguear entre pessoas a passear, no primeiro dia de calor do ano, sem chapéu ou água. Corri 17k porque sou capaz. Não me senti feliz mas estou muito perto disso. 

[Obrigada Pedro (Treino em Casa) pela segurança. Disseste que seria capaz de correr a Meia-Maratona. O dia de hoje foi para ouvir essa frase]

[Obrigada Marta e Catarina. We rock]




sexta-feira, 6 de março de 2015

terça-feira, 3 de março de 2015

|Mini-reportagem de um desafio| 3 de março

Corrida não é pernas, joelhos, tornozelos ou pés. Corrida é cabeça. Corrida é emoção. Não somos corredores, atletas ou desportistas- o que queiram chamar. Somos pessoas que encontram no silêncio da passada, no vento na cara, no sal do corpo cansado uma espécie de paz- um encontro com o difícil equilíbrio. Nem sequer é só um desporto. Vejo-o como um caminho, um meio para a tranquilidade que necessitamos. Sossegamos o espírito, cansamos as preocupações, alegramo-nos com as metas... Corri hoje. Corri com o coração.



["quando fiquei com a Maggie egoisticamente senti que tinha ficado com um bocadinho do papá. Talvez por isso me custe tanto dizer-vos que morreu."]

|Mini-reportagem de um desafio| 28 de fevereiro

Corri 16k. O tempo foi péssimo. Talvez um caracol me ultrapassasse, uma tartaruga, pelo menos. Parti de casa e enfrentei uma dura subida de exatamente 1k. Não parei nunca e até me senti bem. Até chegar a casa da Marta fiz mais ou menos três quilómetros. Descemos por Algés, atravessamos a linha do comboio para o outro lado. Conversávamos mas eu pensava em silêncio. Estava com medo do meu corpo. Foi-me diagnosticada uma hérnia discal e umas quantas vértebras calcificadas. Só lhe perguntei se podia continuar a correr. Anuiu mas na verdade não fui muito clara. Podia ter dito que não se tratavam de dois ou três quilómetros... não disse e ele deixou. Contudo, sinto uma barreira perto dos 10k. Começa-me a custar pousar o pé direito no chão. A parte interna dói a cada pisada e eu vou saltitando concentrando-me em pisar a parte externa. Entre a ultima e esta corrida andei aflita. A hérnia comprime o nervo ciático e custa até adormecer. À dor no pé acrescento o formigueiro no joelho e toda a perna presa. Hoje corria assim. A falar, a ouvir e a pensar nas dores que tinha, nas dores que estava a provocar, nas dores que me podiam inibir. Passei os 10k com cautela. Cheguei aos 16k com felicidade. As dores foram suportáveis e senti-me próxima do meu objetivo. São agora 23h37. Estou deitada. Hoje foi um bom dia.








[Obrigada Sr. do café da estação da CP de Algés. Um copo de água ao quilômetro 15... foi um Magnum Amêndoas numa noite de verão. Desculpa Marta pela laranja e pela banana que comi em tua casa. Obrigada Rita por me teres ido buscar e por teres feito o jantar]

|Mini-reportagem de um desafio| 26 de fevereiro

Chego a casa e vejo-a. Já ia a medo. Não nos recebe à porta. Não acorda. Não se mexe. A Marta espera-me para um treino de descompressão. Visto-me, desço as escadas e encontro-a. Não consigo ir. Não consigo correr. Volto a casa e pego na Maggie ao colo. Levo-a ao veterinário e ouço o que já sabia. Dispo a roupa de corrida. Sinto a dor no joelho, sinto a dor na anca, sinto a dor no coração. Vou perder a gata do meu pai. Vou perder o meu pai outra vez e outra vez e outra vez. Choro muito. Abro agora a porta aos meus filhos com o sorriso que só os pais e mães sabem fazer. Não corri e não quero nem saber. Estou cansada.

|Mini-reportagem de um desafio| 25 de fevereiro


Ontem corri 11k. Mudei de roupa no trabalho e parti de Oeiras. Passei Paço de Arcos, Caxias, Algés e virei na Cruz-quebrada. Subi até Linda-a-Velha e finalizei com uns alongamentos mal engendrados. Não parei de conversar com a Marta em todo o percurso e isso alentou-me. Antes não era assim. Mal respirava. Mas falámos, sim. Sentimos a dificuldade de uma estrada com uma ligeira inclinação lateral e manifestámos o incómodo provocado pela irregularidade da calçada. Rimos quando sentimos estar a ser fácil e decrescemos para mini ratos quando acusou o cansaço. Corremos o tempo todo a pensar em papas de aveia e quando terminámos, bebemos água e comemos nozes. Foi um bom treino. Hoje dói-me o joelho direito e o final das costas, no exato lado já lesionado.  Sinto-me, ainda assim, bem.
O Filipe hoje perguntou-me se iria correr 21k daqui a 24 dias. Anui, com voz sumida. Não queria contar mas não sou fã da mentira. Disse que sim. Anunciou que me esperaria na meta com o megafone que lhe pertence na organização. Senti o medo com um murro no estômago.
Disse ao meu marido. Anunciei que o faria e observei. Senti-lhe o medo mais do que o espanto. Conhece a minha persistência. Disse que correria ao meu lado. Afastei essa ideia.
Faltam 24 dias e agora que verbalizei, temo não conseguir. Medo da dor, medo do fracasso... Sinto medo. Maldita hora em que senti que tinha de contar.







domingo, 15 de fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Aviso: este é um post chato sobre corrida

Quando decido que é dia de treino, não pode ser dia de mais nada. Ponho os quilometros na cabeça e, enquanto não calço os ténis, não penso em outra coisa. Planeio tudo ao mais ínfimo pormenor. Cálculo a distância ao minuto, conto o tempo que demorarei até ao local e mesmo os descontos para estacionar e chegar depois a casa. No outro dia saí mais cedo do trabalho-coisa rara. Não pensei em ir às compras, nem deitar-me no sofá. Sabia que tinha de começar a correr às 5 para ir buscar os miúdos à hora certa. Sabia que correria mais devagar no início e teria de acelerar no fim. Custa-me sempre o início. Sempre. O primeiro quilometro não é nada. Tudo bem. Entre o segundo e o quarto, parece que não sou capaz. É nesta altura - sempre - que duvido de mim. Curvo mais o corpo e arrasto-me pelo esfalto. Sinto vergonha por me estar a custar. Já passaram uns bons anos desde que me iniciei. Aparecem os demónios da minha cabeça e o esforço é sobretudo mental. Numa luta comigo própria, falo em silêncio. Falta-me o ar e penso- não me doem as pernas, não sinto nada e, no entanto, parece que quero parar. Ana, está tudo bem. És forte. Que orgulho. Pensa! Não tens nenhuma dor. Tu consegues, vou repetindo.  E não páro nunca. Ponho os braços para baixo, abro e fecho as mãos, e continuo. Um pé em frente do outro. Nesta ultima vez estava sozinha. Fui pelo meu jamor, passei a ponte e fiz o novo passeio. Muito próximo do rio com uma luz sem descrição. Estava cansada e, no entanto, feliz. Passei por Algés, olhei para os lados, cumprimentei algumas pessoas. [é das coisas que mais gosto] Segui um rapaz de bicicleta e fui por detrás de um viaduto. O chão era de terra e o corredor de graffitis. Estava completamente só. Não tive medo. Não me lembrei do nome daquele monumento. Fiz quase um quilômetro a pensar nisso. Cheguei à Torre de Belém e depois ao Padrão dos Descobrimentos. A música nos meus ouvidos, os olhos na ponte. Dei a volta e acelerei. Voltar é sempre mais fácil. Os pensamentos são sempre outros. Atropelam-se as dúvidas para o jantar, as hipóteses para a roupa do dia seguinte, a lista de tarefas ainda por cumprir. Será que lhe correu bem o teste de música? A pêra que está no carro- quase que lhe sinto o sumo. Tenho a cara salgada. Vejo agora o sol de frente. Laranja. Passo novamente a ponte e chego. Tiro os fones. Passa pouco das 6 horas. As minhas pernas tremem. O resto do meu corpo emana alegria. Mando a mesma mensagem de sempre "Acabei. Quase a chegar". Os meus filhos perguntam-me "quantos quilômetros?" Os olhos deles são a minha medalha. 




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Interrompendo o silêncio, para um pequeno desabafo

Ai, eu não leio o correio da manhã, não vejo a casa dos segredos e muito menos vou ler ou ver as não sei quantas sombras do outro. Ai c'orror, que sou um ser iluminado e superior. Ai, que enjoo, digo eu. Estejam calados, masé! Digam a verdade, que não faz mal! Assumam que desaceleram quando passam num acidente. Que espreitam as letras garrafais daquela revista manhosa. Digam que apreciam saber a história daquele vizinho piloto que aparece de vez enquando. Cruzes, assumam que até gostam de umas farturas na feirinha do verão! Que a sardinha no pão é outra coisa. Caramba, não vos coloca uma etiqueta em cima. Não têm automaticamente de envergar um chinelo com fato de treino e cuspir palitos da boca. Não somos seres superiores e inferiores! Assim, preto no branco. E o que é ser superior ou inferior? Ai, vês a telenovela das 21h religiosamente e não podes assumir uma outra novela como um romance de livro de bolso? Uuuuu, é completamente diferente! Credo, aqueles miúdos burros e parvos do reality show!! Vejo tanto adulto de fato e gravata bem pior... Custa-me a hipocrisia. Não tenho a mínima vergonha. Sou menina para me sentar na pior das tascas, para comer caracóis mal lavados e ouvir umas anedotas bem contadas. E com as asneiras ainda fica melhor. E sou menina para me emocionar com uma peça de teatro, depois de uma qualquer refeição gourmet, num daqueles sítios que se partilha no Instagram. Cada coisa no seu lugar, no seu contexto. Como em tudo na vida. E calou. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Já fui ao Brasil Praia e Bissau Angola Moçambique Goa e Macau Ai, fui até Timor Já fui um conquistador...

Pedi para ela a ir buscar à escola. Eu estava a meio de uma reunião e a pequena não se sentia bem. Seguiu as minhas indicações e quando lá chegou, não se lembrava do nome da minha filha. Simplesmente não se lembrava. Os segundos passavam, os minutos e o olhar incrédulo de quem lhe abrira a porta, mais nervosa a deixava. Estava ali mas não estava. Estava dentro da sua cabeça mas não saía. Ficou nervosa, preocupada. O nome apareceu, como desapareceu- sem explicação. Rimo-nos muito. Não se esquece o nome de quem nos é próximo. Supostamente. Rimos, porque escolhemos rir. Como quem vê o copo cheio. Já passaram uns poucos dias e continuo a pensar nessa "branca". Lembro-me da Alice que há pouco li mas afasto essa ficção. Nego qualquer semelhança com algo tão real. O copo transborda a água e na verdade recordo-me de tudo o que me esqueço, fundamentando. A memória é lixada para não dizer uma coisa feia. Espanto-me com a arbitrariedade- ou não- das escolhas cerebrais/ emocionais que são feitas. Lembro-me de tanta coisa e outras é como se não tivessem existido. Recordo-me do meu primeiro beijo, por exemplo. Lembro-me de sermos da mesma altura e de olhar para os lábios dele. Quase uma câmara lenta que gravei e localizo no cimo da escadas da escola, mesmo ao lado do Pavilhão B. Não me lembro do apelido dele. Não consigo mesmo recordar-me. Lembro-me da pápa de pêra abacate, limão e açúcar, da ceralac nos pratos em flor, dos passos do meu pai antes de colocar a chave na porta mas não me lembro de um único brinquedo meu. Vejo o skate de um irmão, a bicicleta vermelha, o Bart Simpson na mesa do caçula e... nada meu. [pronto, recordei-me do careca] Vejo-me a entrar na cozinha em passo acelerado, por um pé no azulejo e... branca. Não sei o que fui lá fazer. Tento adivinhar abrindo os armários, olhando para a roupa estendida e acabo por dar utilidade à minha presença ali- mas não sei bem se era aquela a ideia inicial. Lembro-me da Mónica, a minha melhor amiga na escola primária e penso muito na Carmo que não brincava com ninguém. Lembro-me agora dela porque só agora realizo a sua preocupante tristeza. Desejo que tenha passado. Não me lembro de um único professor da escola preparatória. Fecho os olhos e vejo as salas e os corredores. Estranho, não é? Não me lembro quando nasceu o primeiro dente do meu filho. Seis meses, 10 meses- não faço a mínima ideia. Lembro-me dos meus irmãos me chatearem. "Ana, banana, macaca, cigana". O cafuné, à noite, à minha mãe. Os penteados com a escova preta. Não me lembro das matriculas dos meus três primeiros carros. Memorizei pelo menos dez da frota do meu trabalho. Sei quem anda com qual. Carrego o número de contribuinte como o nome de um filho. De trás para a frente. Sei passwords sem fim. Cartões multibanco, emails, cartões cidadão, acesso a escolas e afins. De todo um agregado familiar. Os números aparecem-me naturalmente. Demoro minutos a identificar uma cara. Não sei se é da piscina, dos escuteiros, da catequese, das corridas, do trabalho, da escola, do trabalho dele, do futebol, do diabo a quatro. Sei a letra completa da música "Conquistador". Recordo o movimento dos meus braços quando a minha mãe enrolava o novelo para o crochet.
Podia estar aqui horas e horas. A nossa mente memoriza sob critérios que desconheço. Coisas boas ficam e algumas más são inesquecíveis. Pormenores esfumaçam-se ou transformam-se em grandes marcos. Não sei explicar. Nem sempre me faz sentido. Nem sei se tem, de facto, algum sentido. Vamos guardando coisas e esquecendo outras. Acho que o que tem importância-boa ou má-acaba por ficar. 
Inês- Fonte Caspolina- não sei a idade...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

27 de Janeiro de 2015

Para quando nos esquecermos [porque esquecemo-nos]: 

detestas cebola. Todos os dias perguntas-me se a sopa tem, se o arroz tem, se alguma coisa tem. E a cenoura segue o mesmo caminho. Está em tudo e não está em nada. Bebes chá como eu e já pedes que seja de pêssego e não de caramelo como o dela. Mergulhas a bolacha Maria e fechas os olhos. Devagar. Róis as unhas. Não tens vergonha de abraçar os teus peluches (mas já vês futebol como um homem de barba rija). Gostas de estar sozinho na casa de banho e a pasta de dentes ainda te pica. Segues o teu pai como um patinho e às vezes tenho ciúmes. Tu sabes. Já ficas menos vezes doente mas ainda hoje te libertas da febre e tosse de há poucos dias. Pedes-me num choro encenado para não ir à escola. É fácil falar-te do hospital e das vezes que as injeções de penicilina te magoam. És rápido a vestir-te. Falas à bebé mas já não dizes "não xei". Tenho pena. Dormes com as mãos debaixo da almofada sempre direitinho. Tranquilo. Ainda és o meu bebé. 
Tu... Implicas com as costuras das meias, collants e não vestes quaisquer cuecas. És dificil de convencer e já sabes que o vermelho não combina com cor-de-rosa. Pedes-me blusas que deixem o ombro à mostra mas ainda empurras o carrinho com um bebé fingido. Contas-me segredos mas já sei que não são todos. Escreves como eu. E dobras os papelinhos. O teu choro já é diferente. Também não gostas de cebola mas já não te escondo onde a ponho. Gostas de chamuças e alimentos picantes. Adoras desafiar. Gostas de correr comigo e eu gosto de te ter comigo. Queres sempre dormir com ele. Queixas-te muito. Que o defendemos, que o protegemos, que, que... E queres sempre dormir com ele. Riem-se, conversam e eu zango-me mas adoro. Olho para ti e vejo-me muito. Ris-te de forma parecida e és tímida como eu. Mas és tramada. Queres crescer e eu deixo-te mas não demais. Lembro-te que não largas o teu ursinho branco e que ainda te enrolas toda com mimo. Tens pequenas sardas e cabelo dourado. És muito bonita. 
27 de janeiro de 2105. Tu, filho, dormes em cima do meu braço enquanto escrevo. Estás agarrado a um peluche e sei que não te vou conseguir pegar. Vais ficar mais um bocadinho. Tu, filha, já percebeste que escrevo sobre ti. Não te deixei ler mas sei que o vais fazer. E vais dizer que eu devia ter escrito outra curiosidade qualquer. Digo que vou retificar mas não altero. 

Hoje estão assim, quase iguais. Apeteceu-me registar. 

                 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Complexo de Deus

Por tanta gente que não acredita em algo superior, há ainda mais quem pratica um exercício de auto-divindade que me tira do sério. Têm a crítica na ponta da língua e a voz sai com conotação de sabedoria extrema. Razão só há uma e tem o seu nome por baixo. Sabem tudo e têm uma opinião sobre este mundo e o outro. {Aqueles não são felizes, o outro anda com a outra, gastam o que têm e não têm, não sabem o que fazem!} Vão buscar as vestes, alteram a voz, abeiram-se e avançam com os sagrados ensinamentos. {Faz assim, faz assado, eu não sei mas acho...} Só existe um caminho. E há para quem seja mais fácil ser conduzido. E encarreirar como é suposto. E baixar a cabeça e aceitar a benção. E fustigar-se com imaginárias vergastadas. E... há para quem seja impossível ser assim. Porque não vislumbra a divindade. Porque vê outro ser, igual a si, e talvez com mais necessidade de colo e atenção. Há quem não aceita o sagrado vindo de um ser terreno, tão imperfeito quanto si. A verdade é muito subjetiva. É- digo-o, agora eu, com igual sobranceria. Tão simples quanto o que já todos percebemos. Não há casamentos constantemente felizes, não existem amizades sem erros e desculpas, não há atitudes sempre certas e pessoas integralmente boas. Não há branco e preto- apenas. Há, muitas vezes, o cinzento e, felizmente, uma enorme paleta de cores. 
Por isso, pessoas iluminadas:
Deixem lá de examinar exaustivamente o vosso próximo, apesar de tentador. Não assumam a vossa capa de superioridade, quando ela pode cair amanhã. E já agora, parem lá de criticar os pais e mães que levam as crianças a ver a Violleta! Não, não se estão a estragar as meninas. Não, não vão ser, necessariamente, seres fúteis e ignorantes. É apenas um concerto! Não estamos a levar as miúdas a snifar cocaína.