Quando ele, sob lágrimas disse: "Ela não teve nada a ver com isto. A culpa é toda minha."
quinta-feira, 30 de julho de 2015
[selfies parvas, não contam]
Acredito que não acreditem mas, não gosto que me tirem fotografias. Nem sempre deixo, viro muitas vezes a cara e apago das câmaras alheias. Por isso, vão desistindo... Contraditória como só eu, adoro ver fotos. Tiro muitas a tudo e a todos. Partilho algumas e revejo-as vezes sem fim. Funcionam com um diário que muitas vezes só eu sei ler. Coisa estranha esta. Coisa minha.
Agora que via fotos de outros, pensava nisto. Não há quase registo meu nestas férias. Culpa minha. Pensava porque vejo fotos de mulheres, como eu, sentadas nas suas cadeiras de praia, a reluzir ao lado do seu bronzeador e cuidadas com as suas pulseiras, chapéus de palha e elegantes fatos de banho. Penteadas e arranjadas. Sem areia ou marcas de sal. Talvez não sejam mulheres com eu, afinal. Ou eu não sou como elas, bem vistas as coisas. Estava a pensar que se me tirassem fotografias nas férias apanhariam-me em desalinho. Com os pés castanhos de passar a ria a pé. Com o cabelo despenteado do vento que apanho à beira mar. De cócoras a procurar conchas e seres vivos... Numa corrida desenfreada até à água. A jogar às raquetes com os miúdos. A fazer piscinas à beira mar. E castelos e túneis. De joelhos esfolados por não sair dali. A boiar na água, a olhar o céu. A comer laranja na toalha com areia. A tentar fazer o pino como fazia. A apanhar figos empoleirada por entre os ramos. A comer entrecosto com as mãos. E conquilhas. E melancia. Muita melancia. Deitada na relva a olhar as estrelas.
Se me tirassem fotos nas férias, talvez não parecesse igual a elas.
Talvez eu não seja mesmo como elas. Não faz mal.
sábado, 25 de julho de 2015
1, 2, 3, já cá estamos outra vez
A dinâmica de hoje obrigava-nos a um exercício de memória, adequado a quem a está a perder. Pedimos que pensassem nas férias. Sem limites ou regras. As férias de há 30 anos. As férias do mês passado. As passadas em quentes praias ou as do Natal. Basicamente, pedíamos memórias boas. Como habitual, começámos por dar o exemplo. A Marta regressou à sua infância. Falou das barraquinhas às riscas, da praia ao pé de casa e parou. Os olhos encheram-se de água. Lembrou-se de quem já cá não está... Comecei a partir daí. Controlada, cautelosa... refugiei-me no humor. Contei como viajávamos, rumo ao Algarve, todos os Verões. Num, em particular, íamos os cinco no banco detrás, colados, com os nossos pais à frente e todo um mundo de malas e colchões sob cordas atadas no tejadilho. Lembro-me de nos apitarem e de nos fazerem sinais. Tudo estava espalhado pela estrada... todos se riram e iniciaram a sua partilha. Tomaram a mesma decisão. Memórias alegres, histórias engraçadas, lembranças e mais lembranças. Enquanto pensava que a doença de Alzheimer não conseguia roubar tudo, lembrava-me do que podia ter contado. Sem me perder... Nós os cinco apertados no banco de trás. A mão grossa do meu pai a fazer-nos festas adivinhando as pernas de cada um. O frango frito e o trinaranjus de laranja, na bagageira aberta. Os jogos de cartas, à noite, perto da piscina. A fruta comprada à beira da estrada. As sandes de ovo na praia. O Rui a deixar cair os Calipos, o Pedro a dormir de barriga para cima, o Filipe sempre bebé e o João próximo e igualmente distante na sua já adolescência. O toque do despertar lá pelas 8... as horas de digestão religiosamente contadas... o creme protetor de um branco que nos envergonhava... Nadar em cima das costas do meu pai. Apanhar ondas em corridas sem fim. As idas ao mercado. Os figos e as amêndoas para a tarte. A minha mãe cansada. As sestas da tarde. As noites quentes e o som das cigarras. O nosso primo Daniel. As sardinhas. A nossa gata que estranhava e se habituava. Os postais e cartas que enviava.
Seguem-se outras memórias. Mais recentes. Diferentes. Com amigos, com filhos, com a família. Sempre por aqui.
Chegámos hoje. O meu filho abriu a janela e disse "cheira a Algarve". Não vinhamos cá há três anos... Tudo se mistura. A lembrança de nós crianças, todos juntos. A dor de estar aqui sem... As coisas que já não são a mesma coisa. As boas que agora vivemos e as memórias que o futuro no reserva.
Cheira a Algarve, de facto.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Quem diz melancia, diz melão. Ou figos, vá
Bem sei que a maioria das pessoas sonha com águas cristalinas, pés enterrados na areia, destinos de sonho... as férias num postal. Claro que gostaria, também, de tudo isso. Terei um pouco, é certo! Carregaremos um carro até o pára-choques roçar no chão, levaremos este mundo e o outro como se fossemos emigrar para França, iremos arrastar-nos todos os dias para a praia com as toalhas, as raquetes, a bola, o protetor, as sandes de ovo, a garrafa de água, o livro... cozinharemos refeições, incluindo uns raquíticos croquetes no forno, e sim, iremos tirar fotografias pirosas. Serão as nossas férias- as reais e boas. Mas... o que eu queria mesmo mesmo... eram estas ferias e... sair desta casa sabendo que amanhã aqui estaria uma equipa de intervenção. Não falo de amadores. Falo de gente profissional capaz de limpar locais de crimes passionais. Gente que entraria por aqui a dentro com um espírito de missão: fazer-me feliz. Tecnologia avançada, os melhores produtos, o maior rigor e eficácia. Deixo aqui uma lista que me deixaria assim pró contente:
- Vidros lavados. Janelas e caixilhos incluídos.
- Tapetes limpos a seco.
- Toalhas imaculadas e fofinhas.
- Roupas das camas lavadas e esticadas. Incluindo colchas e almofadas.
- Livros escolares plastificados e identificados.
- Paredes pintadas.
- Roupa toda passada e devidamente guardada. A que já está pequena colocada em pequenos sacos para passar para as crianças seguintes.
- Frigorífico lavado e arca com refeições confeccionadas e devidamente acondicionadas (com etiquetas identificando quando foi feito e o que é).
- Despensa cheia com os rótulos para o mesmo lado (sim, papá, estamos iguais).
- Plantas regadas e água do aquário mudada. Peixes novos, por favor.
- Pó eliminado tipo depilação a laser.
- Casas de banho esfregadas com lixívia desde o primeiro azulejo até à ombreira da porta. Escovas de dentes mudadas e talvez umas velas acesas.
- Candeeiros igualmente lavados.
- Brinquedos selecionados e eliminadas 85 bolas de futebol e 300 roupinhas para carecas e bonecas.
- Árvore de Natal montada. Já agora...
- Microondas novo. O outro faleceu para todo o sempre. E se é para comprar, não lavem o frigorífico como já escrevi. Este está quase quase a berrar. Podem substituir.
- Disco externo com filmes novos e os episódios atualizados das séries que seguimos.
- Uma pequena amostra da coleção de outono/inverno nas minhas gavetas. Bastam umas quaisquer cinco gavetas cheias. As lojas podem ser de um qualquer grupo espanhol pois aqui já só se compra fruta nacional.
- As tampas junto aos tupperware correspondentes. As panelas e frigideiras corretamente encaixadas, das maiores para as mais pequenas.
- Se não for muito incomodo, melancia cortada aos cubos numa taça. Sem pevides.
[Isto da felicidade... Cada um com a sua...]
quarta-feira, 22 de julho de 2015
...
As redes sociais dão-nos esta ilusão. Vemos os seus sorrisos, assistimos às férias, ao casamento e baptizados, vemos os filhos crescer, os marcos na escola, as gracinhas do animal de estimação, as vitórias... Estamos completamente fora e, no entanto, temos uma estranha sensação de proximidade. Como se de uma maneira completamente twilight fizéssemos parte. Ia escrever que não fazemos. Arrependi-me. Acaba por acontecer. Não sei explicar como mas, provocando emoções em nós, é um bocadinho nosso.
Estive com ela, numa altura longínqua da minha vida, umas dez vezes. Talvez mais, não sei. Tínhamos uma grande amiga em comum e o quotidiano acabou por se cruzar algumas vezes. Os anos passaram e passei a vê-la muitas vezes. Cada vez que ligava o computador, para dizer a verdade. Vi nascer mais um filho, assisti a algumas viagens, li alguns desabafos, acompanhei alguns anos sempre de alguma coisa. Agora leio que se despede da vida. Do marido. Dos três filhos pequenos. De tudo. O cabrão do cancro voltou. Levei um soco no estômago. A cada frase lida perdi o ar. Mal a conheço. E ao mesmo tempo conheço-a. A ela, à doença, ao sofrimento, à perda. Às vezes detesto a aleatoriedade da vida. Às vezes a vida é uma merda.
"Tudo mudou mais uma vez e agora sei que não terei uma longa vida... as coisas alteraram-se todas em minutos e agora basicamente o pensamento é deixar, arrumar tudo, acertar mimos, dar beijos, relembrar memórias, dizer que amo muito e gosto... para que todos fiquem bem."
terça-feira, 21 de julho de 2015
#coisasquesóamiminteressam
Sentado no carro, enrolado no seu casaco invernoso, disse-me:
- Sabes, mamã, eu acho que já sei porque é que eu não tenho forças. No outro dia dormi muitas horas e o meu corpo esteve muito tempo sem trabalhar. Se calhar, está confuso.
Não vos diz nada, eu sei. Nem sequer piada tem. Para mim, diz tudo. O meu pequenino grande.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
"Eu desabafo com as minhas lágrimas"
Vejo pelo espelho retrovisor a cabeça encostada na janela. Não me pede para colocar outra rádio nem para mudar de música. Não há som entre os dois. Nada. Silêncio absoluto. Sei que não vale a pena perguntar. Conduzo. Entramos em casa e sei o que tenho a fazer. Deito-me ao lado. Beijo-lhe a cara salgada, afago o cabelo e tento entrar. Nunca consigo logo. Nunca. Inicio um jogo de avanços e retrocessos. Muitos silêncios. Não posso pedir logo tudo mas começo por algo. Ouço uns nadas que são tudo. Lembro-me de mim. Lembro-me tão bem de mim! Respeito aquilo que não me quer dizer. Respeito a sua idade de gente e a sua privacidade. Engulo lâminas invisíveis. Conta-me só o que quer contar. Confia aquilo que é de confiar.
Essa história de que as mães são as melhores amigas não é verdade. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Há esferas que não se confundem. Ou não devem. Mãe é um ser também pequeno. Que começa a dar os primeiros passos naquilo que é fazer crescer outro bem mais desprotegido. Não há livro, experiência relatada ou ensinamento transmitido que transforme uma mãe, num ser seguro da sua sabedoria. Eu não tenho certezas, pelo menos. Nem sempre sei quando devo forçar, quando devo exigir, quando devo largar. O que melhor sei é aguardar. Estar ali e esperar entender os sinais. Eles (os miúdos), normalmente, devolvem-nos o que precisam. E, assim de repente, as lágrimas saem com mais força, as palavras atropelam-se. Simplesmente deixam-nos entrar. Lambem-se as feridas. Abraça-se forte e descontrai-se. Todos os problemas se resolvessem assim.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Quem diz é quem é
Acho que há pessoas que entram na nossa vida, porque têm de entrar. Estão no nosso mapa astral, destino ou sei lá o quê. Simplesmente, faz sentido acontecer. Conheci-te em 2002. [Já contei esta história milhentas vezes.] Falei-te pelo telefone. Cheia de formalidades. Dr. para aqui, Dr. para acolá. Como o Dr. melhor entender! Ainda gaguejava e corava, a cada assunto a resolver. Terminaste a chamada telefónica com um caloroso e sonoro "beijinhos". Pousei o telefone e fiquei uns segundos a pensar. Quem serias tu? Estávamos em 2002, repito. Eu acabada de casar (ou prestes a fazê-lo), sem filhos e sem quase nada saber. Tu, numa história que eu reconhecia. A nossa amizade começou ali, naquele despedir caloroso. Ali mesmo. Passei, nem sei bem como, a contar com isso. Passou a ser assim, simplesmente. Viste-me crescer. Assististe aos meus primeiros passos como mulher de alguém, como mãe de alguém, como subordinada de alguém, como amiga de alguém. Assististe a tudo. Ainda o fazes. Sabes quando perco o sorriso. Sabes quando finjo um sorriso!!! Vislumbras os meus olhos a ficaram brilhantes e adivinhas quando preciso de ti. Estás sempre lá. Esforço-me por chegar aos teus pés. Para ser amiga como tu és. Falho tanto. Taaanto. Assumo sempre as minhas culpas. Peço desculpa, algumas... muitas vezes. Tenho pressa quando bebemos café e nem sempre devolvo as chamadas. Sempre a correr. E tu suspiras ao mesmo tempo que sei que sorris. Mas penso em ti, sempre. Penso que mereces o melhor. Desejo que saibas que mereces o melhor. Não só hoje porque é especial. Sempre e para sempre.
Hoje, quando me ligaste ao final do dia disseste... uma das coisas que gosto mais em ti é que não sabes o quão maravilhosa és. Não sabes! Sei algumas coisas. Já estamos em 2015 e aprendi. Sei que aquilo que sou, resulta daquilo que os outros são comigo. Por isso, devolvo. Tu és maravilhoso. Hoje repito uma pequena parte do que já escrevi:
"(...) O post que eu queria publicar diria obrigada, mil vezes, e mais umas tantas, até ao infinito. Por me aturares. Porque pensares antes dizer qualquer coisa que me magoe. Por dizeres coisas que me magoam.
O post que eu queria publicar agradecer-te-ia por me fazeres rir de manhã. Por me fazeres rir à tarde. Por me ligares, sem te esqueceres, que eu vivo desse balão de oxigénio. Das conversas parvas, das confidências. Dos silêncios.
O post que eu queria publicar não chegaria para reconhecer o valor dos teus gestos. Por acreditares em mim. Por não me julgares e até por te zangares. Pelas tuas lágrimas quando sabes das minhas. Pela tua preocupação com as minhas preocupações.
O post que eu queria publicar dir-te-ia que gosto muito de ti (...)". (2013)
sexta-feira, 29 de maio de 2015
E ainda querem a Isaura a escrever!
O meu irmão mais velho tem fotografias na escola primária em que se avista o pijama por baixo da camisa escolhida para o ilustre dia. Sabendo o que sei hoje, não sei como é que ele não apareceu de cuecas.
Os meus pais tiveram 5 filhos. Quatro rapazes e eu. Crescemos saudáveis, não acabámos em nenhum estabelecimento prisional e nunca tivemos desaparecidos mais do que 2/3 horas. Hoje, acho que este feito seria digno de condecoração em assembleia da república.
Eu, com apenas dois pequenos seres, sinto-me constantemente à beira da exaustão. Por diversas vezes sinto uns tremores a assomarem-se às veias do pescoço tais os nervos que me assistem. Nem sei bem como transmitir... Não sei se fale nas horas que já passei sentada em semi bancadas de terras com nomes como Algueirão ou Mem Martins. Dos jogos seguidos em que finjo perceber aquilo que as outras mães gritam com fervor para dentro do campo. Talvez mencione as inúmeras meias que viro para que fiquem bem lavadas e das milhentas bolinhas pretas que apanho do chão e que podiam cobrir todo um relvado sintético de um qualquer estádio. Falo das chuteiras e caneleiras e do saquinho para o banho, dos tênis para trocar e da roupa extra. E os chinelos e a botija de água. Ó mãe........ Falta a braçadeira de capitão! Falo das leggins que são precisas para as acrobacias da miúda e das meias cor de rosa que ficam bem com os calções da mesma cor. E da camisola a mostrar o ombro que todas as amigas têm. Do trabalho de EV que ainda não secou e da sandes de ovo que é para variar. E do menu do almoço do dia seguinte que tem de ser consultado. E se é peixe é todo um drama pois "sabe a lixívia" e a Isaura fofinha prepara uma alternativa. E ainda troca a aguinha das garrafinhas para ficarem fresquinhas. Inhassss. E só sei que o granito dá para fazer bancadas da cozinha e procuro no Google as possíveis aplicações para o basalto. E amanhã há festa do não sei quantos e lá se vai comprar a prenda. Tem dormida incluída e, como tal, falta preparar o saco cama, a bolsinha, o pijaminha e a roupinha e tudo e tudo. E a outra tem de estudar matemática e fiquei nas contas de dividir... E há a preparação para a primeira Comunhão! É fazer almoço, é fazer lanche e mais a mochilinha com material para pintar! E o Dia da Criança... O email da
Professora menciona garrafa de água identificada, lanche partilhado, protetor solar nas partes descobertas e dinheiro para o gelado. E vamos já comprar tudo. E estaciona-se o carro e afinal este não é o melhor supermercado pois não dá para comprar a prenda para o outro. E bora lá à outra ponta da freguesia. E que bom que vim de saltos altos para esta mega superfície. Estou tão feliz por ter escolhido o final do dia, do final da semana para fazer as compras. Onde estás? É que esqueci das chaves de casa... Não há problema pois sou perita a conduzir em sexta. Mamã, afinal os rapazes têm de levar copos de plástico para o lanche partilhado. Como é que se diz que forma incompreensível: fuck the plastic copes? Mete o frango na panela de pressão. Eu já disse que é para tomarem banho! E o frango demora muito... Mas o jantar é sandes? Só pão? É o que quiserem. (Sinto as veias e os dentes cerrados) E a pessoa engole o panito e diz aos colegas queridos que não dá para ir aos caracóis pois já enverga um avental e uma colher de pau. E come-se metade das compras adquiridas e agora a mamã vai respirar. Vais correr na digestão? A pulsação visualiza-se no pescoço e o melhor mesmo é sair. Já. E lá se vai em sexta para chegar mais rápido e não há vagas no estacionamento no único sítio com luz a hora tardia. São barcos e tendas e policias e palcos e a pessoa dá voltas e na verdade o pão do jantar até que se faz pesar na barriga.
E agora conduzo devagar e volto para casa. As janelas estão abertas, a luz ainda tem um claro veranil e parece-me que música acalmou o sangue a ferver. Na pas de corrida, na pas de nada. Isaura vai serenar. E o miúdo dá beijinhos no meu cabelo e a miúda pergunta se pode ficar encostadinha a mim. E a Isaura faria tudo novamente.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Posso partilhar? Partilhei
Foi há cinco, talvez sete, quem sabe dez anos. Ele sentiu-se mal. Reconheceu os sintomas, pegou no seu carro e entrou no hospital. Não tinham urgências, avisaram. Estava a morrer, informou.
O meu telefone tocou lá pela uma da manhã. Parei de respirar. Corri. Disseram-me que não valia a pena. Vale sempre. Chorámos quando nos vimos. [Não aguento o telefone à noite. Não aguento.]
Volvidos cinco, sete, quem sabe dez anos, o telefone tocou outra vez. Estava lá novamente com um aviso sério. Coração, outra vez. Corri novamente. Voltou o mesmo cenário e mais medidas- estratégia para quem é repetente.
Desta feita, contudo, foi diferente. Voltou para casa passado uns dias e lá regressou para o delicado procedimento. Estava nervoso. Dizia piadas, como eu. Foi. E eu fiquei ali. À espera. Soube então:
Há cinco, sete, quem sabe dez anos atrás, pediu a um enfermeiro para telefonar ao meu pai. No escuro da ocasião, falaram muito tempo. Explicou-lhe em pormenor o que havia acontecido. Respondeu a todas as dúvidas próprias do desespero de um pai.
Volvido este tempo, levava-lhe o dinheiro. Queria, porque queria, pagar-lhe a chamada telefónica, simplesmente porque se havia lembrado. Nervoso, com medo, pensou no enfermeiro que o ajudou. E encontrou-o. Não aceitou o dinheiro.
[Porque este é também um repositório de histórias, conto esta. Mostra quem tu és. É uma história bonita.]
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Pequeno bebé, grande compromisso
Para quem quiser seguir a minha nova aventura, bastar clicar aqui.
[os restantes mantenham-se aqui, fofinhos]
Marta, obrigada pelas palavras simpáticas e, por te arrastares comigo por esse asfalto fora. We rock!
terça-feira, 7 de abril de 2015
Um ossinho na cabeça até que me ficava bem!
Antes das sete da manhã a pessoa já sente o peso do ferro de engomar. Segue-se o chá, o café, as papas de aveia, as torradas com recheio personalizado entre um sonoro abre e fecha de estores. É acorda para ali, é veste-te para acolá. Espeeeeraaaaa... Já vooooouuu.... É mochilas e cabelos penteados. É vistoria aos dentes e casacos. É pintar um olho e meia hora depois o outro. Um olhar de relance para todo o conjunto vestido (não vá envergar o casaco azul julgando ser o preto). É leva um aqui, leva o outro a não sei onde. Cuidado com a estrada, porta-te bem. Sim, eu vou à reunião da escola. É abrir o email e ficar sempre espantada por parecerem cogumelos. Olha-se para um lado, olha-se para o outro e agora vai disto. Quem? O quê? Agora? E pica agora e agora pica outra vez. E sai a lancheira com o jantar de ontem. Ai a fila do microondas! (ai pobreza) E de volta à fábrica. E é fazer e dizer e escrever e pensar bem e atualizar e aprofundar. E vai tu à reunião do miúdo, vai lá! Amanhã vou eu à da miúda. Não consigo sair daqui. E lista para amanhã. Marcador fluorescente. Que dia é hoje? É terça? Mas não é segunda? Tens a certeza? Não é dia de futebol do miúdo, graças à Santíssima Trindade. Ai, é dia de tu treinares os teus miúdos! Leva os nossos, por favor. Tudo a ajudar. Mochilas para amanhã, roupas preparadas. Abrir camas, colocar pijamas, vestir casacos. Sim, o plano da Asics manda correr hoje. Vais tu com eles, vou eu para a estrada- qual foca do asfalto. Encontramo-nos no lar às 20h30. Já temperei os bifes e há caldo de verde. Tudo lavadinho e a engolir a comida pois já está escuro que nem breu e o alarme toca às 6h40. Adeus, adeus, por favor adormeçam. Temos uma hora ou vá duas para ouvir notícias, telefonar à família e fomentar as amizades, ler aquele livro e alimentar a relação. Esqueci-me de preparar os lanches...
[é só para dizer que se isto é a modernidade eu quero voltar à idade da pedra]
sábado, 4 de abril de 2015
O segredo é saber
Existem muitas definições para isto da maioridade. Significados do ser adulto. Lembrei-me disto, hoje, enquanto conduzia pela estrada rumo a casa. Senti-me crescida. Não com mais de dezoito anos, não com descendentes a cargo ou com um estado civil a dois. Senti-me madura. Sabedora da vida. Conduzia e pensava nesta felicidade que vem dos momentos, das memórias e não das coisas. Conduzia e pensava em todos os pormenores destes meus dias... aquelas pequenas grandes coisas com verdadeiro sentido. O livro que o Nuno não se esqueceu de trazer. O Tomás a rir para mim de lado. O meu filho com o braço por cima do meu pescoço. A dança das meninas. As gargalhadas da João. A casa da árvore, a par e passo. O pão a estalar. Eles a chegar com o mexilhão e os percebes. Dormir na relva. A picanha na brasa. O ananás grelhado. O que nos rimos. A beleza da minha corrida. O melhor prego do mundo. Ele a tirar-me fotos. Aquela praia, aquele cheiro.
Só se vive uma vez e é esta a vida que quero.
segunda-feira, 23 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 22 de março (agora o verdadeiro)
Ontem não escrevi nada de jeito. Cortei a meta e estava absolutamente feliz. Cinco minutos depois, o meu telefone tocou e perdi o sorriso. É daquelas notícias que ouvimos e sentimos um tsunami interior. Uma espécie de efeito dominó de dor. Falta o ar e pára o mundo. Segurei a medalha por segurar. A esta hora ainda não sei se está tudo bem e... ainda não consigo respirar. Escrevo por escrever. Para me ocupar.
[22 de Março]
Acordei cedo e não me sentia bem. Estava indisposta e com dores de barriga. Ignorei os sintomas. O meu marido levou-nos ao ponto de encontro, até aos autocarros. Sentei-me do lado da janela. Não troquei uma palavra com a minha desconhecida companhia. Olhei as ruas, olhei as pessoas, olhei o Rio Tejo. Senti-me agradecida por aquela benesse de estar confortável. Seguiu-se uma espera de uma hora e meia. As minhas dores agravaram-se e percebi o porquê. Ignorei. Não me canso daquela sensação. Milhares de pessoas ali quase iguais. Unidas por um propósito comum. A adrenalina é inexplicável. Quase um misto de emoção, medo, ansiedade e alegria. Queremos que comece e, simultaneamente, não queremos. Encarreirámos no amontoado de gente. Uma massa de cor. Liguei a aplicação e preparei-me. Tinha a estratégia toda na cabeça. Coloquei-me do lado direito e olhei sempre para o chão. As pessoas empurram, acotovelam-se, tropeçam. Tive muito cuidado até ganhar o espaço que precisava. Tirei a camisola e deitei-a fora. Os primeiros 10k seriam assim. Cheios de calma, cautela e sem pressas. Tencionava não me cansar e guardar energias para o desconhecido. Lembro-me de pisar o risco que determina o fim da ponte. Primeiro marco. Naquela curva imediatamente a seguir o entusiasmo é incrível. As pessoas aplaudem e gritam por nós. Fui olhando, sorrindo e agradecendo. Não sei explicar a força que isso dá. Mil pacotes de gel. O segundo marco diria que foi quando nos separámos da mini maratona. Olhei para a Marta e ambas percebemos- a nossa aventura começaria ali. Estávamos por nossa conta. Recordo-me de, até aos 7k, não ter dado pelo tempo passar. Foi como se tivesse começado a correr naquele momento. O sol apareceu e eu dei graças, em silêncio, ao chapéu de tinha na cabeça (detesto...). Molhei-o em todos os abastecimentos que encontrei. A água pingava-me em frente dos olhos mas apenas por escassos minutos. Um pé em frente ao outro. Por volta dos 10k bebi o primeiro gel. Acompanhei com água e torci para que evitasse a fraqueza que um dia já senti. Era o meu principal medo. Passámos pela meta e assisti ao fim da mini maratona. Diziam que este era o ponto mais difícil. Para mim não foi. Deu-me muita força. Eu não queria estar ali. Eu estava orgulhosamente do lado que queria estar. Comi mel, aceitei bebidas isotónicas, ingeri mais um gel... Alegrei-me por ver a Sónia, quase gritei quando encontrei a Catarina, disse adeus ao Mário e ao Sérgio, adorei passar pela Joana, dancei ao som das bandas- senti-me sempre bem. Nunca pensei parar, andar e muito menos desistir. Saberia, mais tarde, que o meu marido e os meus filhos estariam por ali. Não os vi. Cheguei à minha casa-Oeiras- e aí, senti a segurança. Ri-me sem parar com o Filipe a gritar o meu nome no megafone e com o Valente a filmar. Foi um marco que acho que nunca esquecerei. Dei a volta na Cruz-Quebrada e vi o Rui a vir ao nosso encontro. Já tinha passado a meta e voltou para trás. Correu connosco, deu-nos água e muito mais do que isso. A Carolina quase que me pôs a chorar. Estava ali para nos ver e eu quase perdi a forças com a emoção. Faltavam 4k e eu sentia que conseguia tudo. Via já a meta, ouvia a música, sentia tudo. Virámos em direção ao fim e dei a mão à Marta. Era um sonho meu, era um sonho dela mas, foi um sonho que alcançámos juntas. Atravessámos de mãos dadas, de sorriso na cara, com uma das melhores sensações do mundo- a de alcançar algo, depois de esforço, empenho e dedicação. Aquilo era nosso. Último marco.
Neste momento, ainda não sei nada. Estou sentada numa cadeira de hospital. Não tenho dores físicas, apenas um aperto que não se deve a qualquer esforço extraordinário. Estou aqui sentada a pensar que hoje o meu pai faria anos e hoje ele está aqui, assim. Estou aqui a pensar em algo que transcende a minha fé. Numa ligação divina que assegura a proteção que peço.
Até ao momento, ainda não sei nada.
Sei tudo agora. A vida tem muitos quilómetros, muitas quedas, muitas metas. As melhores coisas, quase sempre, obrigam-nos a sofrer, a ter medo, a duvidar.
Ele está bem.
[obrigada a todos. mensagens, palavras, abraços, gritos no megafone, meias e dorsais fofinhos. obrigada. a sério]
domingo, 22 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 22 de março
"At least once in your lifetime you should experience the greatness when the body, heart and soul comes together at the same place, at the same time."
Consegui. Corri 21k sem parar, sem querer parar e sem sequer pensar em parar. Não tenho palavras para vos agradecer todo o carinho e amizade. Não tenho palavras, mesmo!
Estou muito feliz.
sábado, 21 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 21 de março
Sempre gostei da expressão "mixed fellings". Houvesse uma entrada no dicionário para esta junção de palavras, a minha foto estaria lá de certeza. Sou uma mente que encerra contradições e, também neste desafio, o padrão transparece. Se por um lado verbalizo que o que pretendo é participar e fazer o que conseguir, a verdade é que não quero só tentar. Se desvalorizo agora o não terminar, um segundo depois assumo que nem quero imaginar. Descubro-me competitiva, terrível e lembro-me, de repente, da história contada. Pintada no tecto do palácio onde trabalho está uma mulher corredora. Era tão hábil, tão veloz que se arriscava a apostar todos os desafios. Quem a vencesse ganhava o direito de com ela casar. Quem saísse derrotado, perdia o orgulho e perdia a cabeça. A história é sobre humildade ou falta dela. A presunção tramou-a. A dada altura, um atleta enganou-a utilizando a sua principal fraqueza- a vaidade. Pintou várias maçãs com cor de ouro e espalhou-as pelo caminho. Iniciada a prova, a capaz atleta deixava-se travar para apanhar aqueles tesouros. Ele ganhou a prova e ganhou-a. A história não conta mas imagino-a, depois, apaixonada. Talvez menos veloz...
Ando com esta história na cabeça, à voltas, a pensar que tenho de me alinhar melhor. Encontrar um equilíbrio entre esta minha vontade de ser bem sucedida e a humildade de compreender que pode não acontecer.
Preparei-me. Esforcei-me muito. Tenho recebido muito carinho e muito apoio. Tenho tudo. Amanhã vou correr uns poucos quilômetros com as pernas e todos os outros que conseguir, com a cabeça e com o coração. Vou até ao meu limite e aconteça o que acontecer, vai ser uma vitória.
sexta-feira, 20 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 20 de março
Muitas vezes perguntam-me o que procuro na corrida. Muitas vezes tiram ilações. Para emagrecer, para encarneirar numa moda, para, para, para... já disse e escrevi, não procuro nada em especial e procuro tudo. Acho que gosto de viver com emoção, viver mesmo. Isto aplica-se na corrida e na minha vida em geral. A escrita vem nesta linha. Nem sempre me apetece, nem sempre tenho inspiração, nem sempre o faço mas... é uma semente que não desaparece. Uma paixão instalada. Escrever na minha casa, em Oeiras, é semelhante a cortar uma meta. É uma adrenalina, um orgulho.
|E sim, estou em pânico. Falta pouco tempo. Estou a pensar ficar deitada a partir da noite de hoje até à madrugada de Domingo, a engolir pratos de massa, com lentilhas e beterraba. Acumularei tanta energia que se me encostarem uma lâmpada, será todo um outro eclipse...|
quarta-feira, 18 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 18 de março
Devagar, com tranquilidade, a dizer para dentro, "sou capaz".
segunda-feira, 16 de março de 2015
|Mini-reportagem de um desafio| 16 de março
"Breathe in... breathe out
Não foi o meu melhor tempo e de longe a maior distância percorrida mas, hoje, especialmente hoje, considero que foi um grande feito. Há dias difíceis. Sei que quando conseguir controlar a respiração, vou conseguir melhorar muitas coisas na minha vida."
Não foi o meu melhor tempo e de longe a maior distância percorrida mas, hoje, especialmente hoje, considero que foi um grande feito. Há dias difíceis. Sei que quando conseguir controlar a respiração, vou conseguir melhorar muitas coisas na minha vida."
Escrevi este minúsculo post no dia 29 de agosto de 2011. Lembro-me que corri numa tarde demasiado quente, no meu Jamor. Sei porque o dia havia sido difícil e sei que encontrei na corrida o meio eficaz para respirar. Volvidos quase quatro anos, é mais claro para mim o lugar da corrida na minha vida. Dizia hoje à S. que estava receosa com a prova de domingo. Com medo de ceder à tentação de correr fora do meu ritmo, de me aleijar, de não conseguir e não terminar. Apercebi-me que estava com medo de desiludir os outros, de fracassar neste desafio. Já me tinha esquecido desse lugar. Não tenho nada a provar a ninguém. A corrida é uma coisa minha. Um diálogo comigo própria. Vou no meu tempo, até onde conseguir. Sem medos.
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